humb

Como escrever bem? E qual o grande desafio de um escritor?

Eis o texto da minha coluna em “O Globo”, de hoje. Tecle AQUI para ler. Na foto, Humberto Werneck.

A primeira regra não é escrever muito, como todos pensam. Esta é a terceira ou quarta regra. O que define um bom texto é a leitura. Leia, leia, leia, leia muito e, depois comece a escrever. Você já ouviu falar de um concertista que não estuda? De um jogador de xadrez que não conhece as regras? Ou um arquiteto que não sabe desenhar? É por aí. O analfabetismo funcional começa aí: as pessoas estão escrevendo sem terem lido livros.

Os livros, em especial, os de ficção, ensinam o enredo da língua, as tramas da linguagem, os segredos do novelo que alinhava a mente e o coração das pessoas. Os livros são a semente da inteligência, são a forma com a qual a linguagem oral se articula. Os grande oradores, com raras exceções, são bons redatores. Depois de muita leitura, continue lendo. Aí sim, você pode começar a escrever, com a música da literatura na cabeça, na alma. Então tudo começa a acontecer, tudo se conjuga.

Vou contar um segredo: sabe o que os escritores antigos faziam para aprimorar a sua técnica?? Copiavam livros de grandes clássicos. Copiavam, mesmo, à mão ou à máquina, livros de Flaubert, Dostoiévski, Sthendal, Thomas Mann, Ernest Heminguay. Há anos que não ouço falar disso, mas era uma coisa natural entre os grandes escritores. Perguntem a Jaime Prado Gouvêia, autor do fantástico livro de contos “Fichas na Vitrola”? Ele cansou de fazer isso.

Depois, sim, vem o tempo, vem a labuta dos dias, vem a prática que o texto nos impõem, vem os novos desafios que a linguagem nos concede. E, por fim, o mais difícil: criar o próprio estilo. Isso, sim, é a grande batalha da vida de um escritor, ou jornalista. Um estilo que a pessoa quando lê, na hora, diz: isso é Humberto Werneck. Isso é Luis Vilela. Isso é Adélia Prado. Isso é Luis Giffoni, Carlos Herculano Lopes, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro. Este é o maior desafio da vida de um escritor: criar o próprio estilo. E depois, pergunte para o próprio os quilômetros de palavras que ele já leu, para chegar até ali. Só os livros e a leitura nos nos ensinam a escrever bem. Este é o segredo.

livrocel

Ler mais é preciso, navegar não é preciso.

Qual a importância da leitura na sua vida? Quantos livros você lê por ano? Você acredita que pode ler, tranquilamente, cerca de 100 livros por ano? Tranquilamente! É só fazer contas.

Uma pesquisa indica que, em média, um norte-americano passa 608 horas por ano nas redes sociais. O tempo de televisão é ainda maior: 1.642 horas anuais. Vejam, só aí, são 2.250 horas, ou seja, 94 dias por ano nas chamadas distrações eletrônicas.

Vamos ao livro. Uma pessoa consegue ler, entre 200 e 400 palavras por minuto. Um livro de não-ficção tem, em média, 50 mil palavras. Em 100 livros, portanto, há 5 milhões de palavras. Vamos pelo mínimo, 200 palavras por minuto. Neste caso, a leitura de uma centena de livros levará 12.500 mil minutos, que perfazem  209 horas.  Ou seja, para ler cem livros você gastaria, apenas, 9 dias ininterruptos, por ano. Resumo da ópera: se você gastar 30 minutos por dia lendo um livro, você vai consumir 100 livros por ano. Imagine se você ler uma hora por dia? 200 livros por ano.

MV Bill disse várias vezes que o livro salvou sua vida. Se não fosse a leitura, ele estaria como 95% dos seus amigos: mortos, ou presos. Amyr Klink fala em alto e bom som que tudo que ele aprendeu nas viagens saiu das páginas dos livros. Já fez mais de 40 trajetos pelo mundo e nunca, nunca machucou-se, nem nenhum de seus auxiliares, nos barcos. Resultado de muita leitura.

A matemática da leitura tem, nas redes sociais e na TV, o seu grande concorrente, infelizmente. Vamos encarar os fatos. Se você subtrair uma das seis horas diárias que passa nas distrações digitais e aplicar na leitura de um livro, você pode chegar na marca de 200 livros por ano. Se for muito sacrifício, dedique meia hora por dia e some, são 100 livros! Já passou da hora das pessoas entenderem que só através da leitura vão conseguir se formar e ser cidadãos e  pessoas melhores, mais preparadas emocional e profissionalmente para vida – que não está fácil. E que é necessário subtrair das redes sociais o tempo para a leitura. A realidade está aí, clara: para ler mais, é preciso navegar menos.

PS – O livro da foto é de Roberto Lima.

amyr1

A navegação poética de Klink sobre Fernando Pessoa

Aqui, a coluna no meu blog em “O Globo”. Abaixo, o texto.

Amyr Klink não é apenas um navegador, aventureiro e escritor. Sabe também decifrar poemas. E sua interpretação de  “Padrão”, de Fernando Pessoa é interessantíssima! Antes, leiam:

Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno.

Eu, diogo cão, navegador, deixei

este padrão ao pé do areal moreno

e para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus

que, da obra ousada, é minha a parte feita:

o por-fazer é só com deus.

E ao imenso e possível oceano

ensinam estas quinas, que aqui vês,

que o mar com fim será grego ou romano:

o mar sem fim é português.

E a cruz ao alto diz que o que me há na alma

e faz a febre em mim de navegar

só encontrará de deus na eterna calma

o porto sempre por achar.

Segundo Amyr, este poema é uma mensagem cifrada – e por isso, a história do brasil é ensinada errada. A descoberta do Brasil, por Cabral, foi um mero mero gesto político. Klink afirma que os portugueses já vinham por estas bandas dezenas de anos antes do descobrimento. As quinas que Pessoa se refere no poema, são dobras no mapa. O mar sem fim, ou seja, o mar abaixo do Paralelo 30, é português. Eles diziam que era português porque já conheciam tudo ali por baixo de cor e salteado. Porque não divulgavam? Medo de excomunhão, já que a navegação pelas estrelas era feita tendo o sol como centro do universo – e não a terra.  E todos sabem que no século dezesseis um dos dogmas da Igreja católica era o Teocentrismo. Ou seja, disse diferente, ia para a fogueira. Agora é ler o poema de novo, desta vez, ouvindo Caetano Veloso.

nodoa-2

Leiam os autores dos países bloqueados pelos EUA

Aqui, o ponteiro para a coluna em “O Globo”. Abaixo, o texto.

Uma nódoa de mágoa roxa, de sangue pisado, mancha a camisa dos brasileiros. Das etnias que Donald Trump bloqueou a entrada nos EUA, os sírios, primos-irmãos dos libaneses, são parte deste sangue seco. Os outros seis países, por enquanto, são Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen. Por enquanto. Virão ainda o Egito, Paquistão e Emirados Árabes. O Brasil é terra hospitaleira. Temos parentesco com os mais de 60 povos que para cá vieram compartilhar suas vidas. Basta lembrar que os nossos dois mais recentes presidentes são prova disso: Dilma Roussef é filha de búlgaros e Michel Temer de libaneses. Da banda da literatura, minha homenagem é a mais simples: listo aqui autores destes países publicados no Brasil e outros que, por sugestão da querida agente literária Lúcia Riff, deveriam ser. Faço assim como o MoMA, que trocou quadro de Picasso e Matisse por obras de artistas como a iraniana Zaha Hadid e o pintor sudanês Ibrahim el-Salahi, além de uma escultura da iraniana Sah Armajani, no salão de entrada.

De todos, sinto que o livro do diplomata Omar Saif Ghobash, “Cartas a um Jovem Muçulmano”, merece ser publicado no Brasil urgentemente. Na forma epistolar, um pai reflete sobre a atual crise global sobre a postura de um jovem, hoje, frente à pergunta mais difícil desta geração: O que significa ser um bom muçulmano? Afinal, jovens muçulmanos de hoje serão os líderes de amanhã, e no entanto, muitos são vulneráveis a propaganda extremista que parece onipresente em nossa era tecnológica.

Consta no prefácio do livro: “tomando um olhar duro nestas perguntas aparentemente simples, Ghobash incentiva seu filho para enfrentar questões que outros insistem não são relevantes, não se aplica, ou podem até ser a islamofobia. Estas letras servem como uma inspiração olhos claros para a próxima geração de muçulmanos para entender como ser fiel à sua religião e ainda navegar pelas complexidades do mundo de hoje. Eles também revelam um vislumbre íntimo em um mundo que muitos não estão familiarizados com e oferecem para fornecer uma compreensão da face lutas diárias de muçulmanos ao redor do globo”.

Aqui, a lista. E abaixo, um glossário, para os que desejam saber mais sobre os autore e livros.

Irã

Parinoush Saniee – “O Livro do Destino” – Socióloga e psicóloga, seu livro fala sobre a situação da mulher no irã, através das décadas.

Reza Aslan – “Zelota – A Vida e a Época de Jesus de Nazaré” – Especialista em religião, mergulha na Palestina do Século I para reviver o Jesus histórico

Azar Nafisi – “Lendo Lolita em Teerã” e “O que eu não Contei” – Escritora, professora. Seu primeiro livro fala de 8 mulheres que se encontravam, às escondidas, em Teerã para ler livros proibidos pelo regime do aiatolá Khomein.

Shirin Ebadi – “Until We Are Free: My Fight for Human Rights in Iran” – Advogada iraniana vencedora do Nobel da Paz em 2003.

Maz Jobrani – “I’m not a Terrorist, but I’ve played onde on TV: Memoirs of a Middle Eastern Funny Man” (título ótimo, que resume o livro: Eu não sou uma terrorista, mas eu joguei um na TV: memórias de um homem engraçado no Oriente Médio)

Iraque:

Lewis Alsamari – “Fuga do Iraque – A História Espetacular de um Homem que Escapou do Caos” – Ator Iraquiano, residente em Londres e fez papel de terrorista no filme UNITED 93. O título diz tudo.

Síria:

Nujeen Mustafa – “A Incrível Jornada de Uma Garota que Fugiu da Guerra na Síria em Uma Cadeira de Rodas” – Refugiada, atualmente mora na Alemanha. Sairá pela Universo dos Livros, está no prelo.

Jennifer Zeynab MaccaniO Mapa das Coisas Quebradas e Esperançosas” – Ainda não publicada no Brasil, é uma autora sírio-americana. Seu livro fala de uma menina síria que foge com sua família em sete países do Oriente Médio e norte da África em uma busca desesperada de segurança.

Paquistão:

Mona Siddiqui – “50 Islam Ideias you Really Need to Know” – Professora de estudos islâmicos na Inglaterra.

Shahab Ahmed – “What is Islam? The Importance of Being Islamic” – Professor de estudos Islâmicos em Harvard falecido em 2015.

Emirados Árabes:

Omar Saif Ghobash – “Letters to a Young Muslim” – Diplomata na Rússia.

Egito:

Zak Ebrahim – “O Filho do Terrorista – A História de uma Escolha” (Alaúde/Ted Books)  O autor nasceu nos EUA, mas seu pai Egípcio foi um dos responsáveis pelo primeiro ataque a bomba no WTC.

Parinoush Saniee – http://glo.bo/2ksjuwl

Reza Aslan – http://amzn.to/2kshdRJ

Azar Nafisi – http://bit.ly/2kse7xj

Shirin Ebadi  – http://amzn.to/2ksd00u

Maz Jobrani  – http://amzn.to/2ksrCgd

Lewis Alsamari  – http://bit.ly/2ksjfkQ

Nujeen Mustafa – http://amzn.to/2ksgik7

Jennifer Zeynab Maccan – http://bit.ly/2k9fEfl

Mona Siddiqui – http://amzn.to/2ktDP4x

Shahab Ahmed – http://amzn.to/2ktEnHz

Omar Saif Ghobash – http://bit.ly/2ktD8bk

Zak Ebrahim – http://amzn.to/2ktSfBq

livrocadeia-3

Livros e pessoas: uma esperança para os presidiários

Hoje, domingo, publiquei no meu Blog de “O Globo” texto sobre a repercussão do meu artigo sobre a “Redenção Pela Leitura”, que segue abaixo. Ao mesmo tempo, a jornalista Débora Freitas, na Revista CBN, entrevistou a mim e Carolina Pimentel, presidente do Servas-MG, sobre o projeto “2a Chance – Rodas de Leitura”, que convida voluntários para bater um papo com os presidiários e incentiva a doação de livros para a formação do acervo das bibliotecas em presídios. Leiam abaixo e ouçam aqui, só teclar aqui: Revista CBN.

Existe, sim, esperança para os presidiários: livros e pessoas

(publicado no Blog em “O Globo”. Para ler no portal, só teclar Blog do Afonso Borges).

Depois que “O Globo” publicou o texto abaixo, fui procurado pelo Servas-MG para uma parceria ao projeto “Segunda Chance – Rodas de Leitura”. A ideia é convocar a sociedade civil para ajudar, na forma de doações de livros literários para compor e melhorar o acervo das bibliotecas prisionais e convidar voluntários para conversar sobre literatura com os presidiários. Uma ponta importante foi costurada nesta parceria: eu tenho know-how para a estratégia mas de nada adianta se não houver um convênio com a Secretaria do Sistema Prisional, que decide a entrada e saída de pessoas e bens duráveis, em uma ponta e com o próprio Judiciário, em outra, permitindo a remissão de pena aos reclusos que topem participar da iniciativa que é, também da parte deles, voluntária. Ou seja, há esperança. E a chave está aí: este é um projeto semente, que pode e deve ser replicado em todos os lugares do Brasil.

Pois conseguimos viabilizar o programa, que começa agora. Só acessar o site www.servas.org.br

E colaborar doando livros ou se inscrevendo como voluntário para as rodas de leituras.

Aqui, o texto:

O bom exemplo foi dado. Mas quem disse que seria fácil?, como perguntam os ingleses… Com cerimônia oficial e pose para foto, o ministro da Educação, Mendonça Filho, e a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, anunciaram ato de doação de 20 mil livros para formação de bibliotecas em 40 presídios brasileiros. Um bom exemplo. Mas este é um assunto espinhoso.

Vamos às contas: são apenas 500 livros para cada unidade prisional. Uma biblioteca módica deve ter, no mínimo, três vezes mais, segundo orientação da ONU. Outra: o MEC informa que o acervo está disponível, ou seja, já estava lá, guardado. É uma boa notícia. Mas se estavam lá, não houve curadoria, não houve escolha dos títulos. Livros, preferencialmente, de literatura de ficção brasileira.

Outra dúvida, localizada no coração do problema: por que o Ministério da Educação, sozinho? Todos sabem que os órgãos ligados ao mundo do livro e da leitura estão subordinados ao Ministério da Cultura. Fazem parte do seu organograma há décadas. Este programa deveria ser entregue ao cargo do ministro Roberto Freire, que, certamente, fará uma gestão balizada e tecnicamente adequada, dada a qualidade de seus pares, como Mansur Bassit, que militou anos na Câmara Brasileira do Livro, e o bibliotecário Cristian Santos, responsável pela Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas.

Está em vigor, há anos, a Lei de Remissão de Pena Através da Leitura. Basta o preso ler um livro por mês, fazer um resumo e entregar. Em contrapartida, dias da sua pena serão subtraídos. Por que não informar isso, no anúncio, como um dos motivos? Milhares de encarcerados pelo país já desfrutam deste benefício. São inúmeros os projetos e programas de incentivo ao hábito da leitura no âmbito dos presídios no Brasil. Da pequena Araxá, no sul de Minas, à periferia de Porto Alegre.

O mais importante desta iniciativa é o exemplo. A força de transformação contida no livro é imensa. E de todas as atividades do campo da cultura, a única realmente factível para o presidiário é a leitura, devido ao fator óbvio do confinamento. A leitura é campo fértil para a mudança. Não é por acaso que a Bíblia é o objeto mais caro, mais bem cuidado, mais protegido, ali. Voltando às iniciativas exitosas, a Penitenciária de Montenegro, no Rio Grande do Sul, criou o ofício de facilitador de livros. Tal atividade é necessária por uma questão de segurança: os presos não podem circular até as salas de leitura para buscar os exemplares.

O que o facilitador faz? Enche uma caixa de feira com livros e roda a penitenciária à procura de leitores. Devido à presença dos facilitadores, quase todo o acervo está emprestado. E o melhor: a cada três dias no ofício, um dia a menos na prisão, como remissão de pena. Isso é exemplo.

E como não é fácil, é necessário facilitar: convidem os bibliotecários, especialistas em leitura e responsáveis pelas inúmeras iniciativas já existentes no país no campo do livro no mundo prisional para participar. Por quê? Porque é um bom exemplo. Porque os brasileiros querem ajudar. Porque todos querem participar de uma possibilidade de transformação concreta que a leitura nos presídios proporciona. Façam deste bom exemplo uma ação comunitária, pública, participativa. E confiram os resultados. Será um incêndio de transformação literária, humana e cidadã. Querem apostar?

mocatam1

Para a moça da LATAM, em tempo de dilúvio

“Vocês tem que me passar uma posição, está insustentável, aqui”, disse a moça da TAM, segurando dois aparelhos de comunicação. Insultos, gritos, olhares nervosos, gente perdida no saguão do aeroporto de Congonhas, ontem. O dilúvio que se abateu sobre São Paulo provocou cancelamentos em série. Sou acostumadíssimo com aeroportos. E para quem viveu greve dos aeroviários, um atraso é nada.

Mas acordei no meio da noite, ontem, com um pensamento inquietante. Será que a moça da TAM teve um colo, um carinho, um ombro para descansar, ou chorar, ao chegar em casa? Qual pedaço do seu coração, ou alma, ficaram guardadas as indelicadezas dos passageiros? Será que houve uma sopa quente, um jantar frugal, um suco de fruta que abrigasse  o cansaço imenso, o desgaste físico e emocional da moça da TAM? O que terá pensado no Metrô, a caminho de casa, vendo a paisagem passar? Será que os olhares agressivos e as vozes irritadas ressoam quando ela faz silêncio? Ao adormecer, colada ao travesseiro, volta um grito, súbito? Vai aqui, para a moça da TAM, esta da foto, que não conheço, um pensamento leve, brando, solidário. Vai um cumprimento saudável, um olhar respeitoso. Bom dia, moça da TAM, um bom dia.

presolendo

Redenção da Leitura

O jornal “O Globo” publicou um artigo do nosso gestor, Afonso Borges sobre a questão da leitura nos presídios. Aqui, o ponteiro para o jornal: http://glo.bo/2j7KAfr – Abaixo o texto, para os não assinantes:

Obom exemplo foi dado. Mas quem disse que seria fácil?, como perguntam os ingleses… Com cerimônia oficial e pose para foto, o ministro da Educação, Mendonça Filho, e a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, anunciaram ato de doação de 20 mil livros para formação de bibliotecas em 40 presídios brasileiros. Um bom exemplo. Mas este é um assunto espinhoso.

Vamos às contas: são apenas 500 livros para cada unidade prisional. Uma biblioteca módica deve ter, no mínimo, três vezes mais, segundo orientação da ONU. Outra: o MEC informa que o acervo está disponível, ou seja, já estava lá, guardado. É uma boa notícia. Mas se estavam lá, não houve curadoria, não houve escolha dos títulos. Livros, preferencialmente, de literatura de ficção brasileira.

Outra dúvida, localizada no coração do problema: por que o Ministério da Educação, sozinho? Todos sabem que os órgãos ligados ao mundo do livro e da leitura estão subordinados ao Ministério da Cultura. Fazem parte do seu organograma há décadas. Este programa deveria ser entregue ao cargo do ministro Roberto Freire, que, certamente, fará uma gestão balizada e tecnicamente adequada, dada a qualidade de seus pares, como Mansur Bassit, que militou anos na Câmara Brasileira do Livro, e o bibliotecário Cristian Santos, responsável pela Diretoria de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas.

Está em vigor, há anos, a Lei de Remissão de Pena Através da Leitura. Basta o preso ler um livro por mês, fazer um resumo e entregar. Em contrapartida, dias da sua pena serão subtraídos. Por que não informar isso, no anúncio, como um dos motivos? Milhares de encarcerados pelo país já desfrutam deste benefício. São inúmeros os projetos e programas de incentivo ao hábito da leitura no âmbito dos presídios no Brasil. Da pequena Araxá, no sul de Minas, à periferia de Porto Alegre.

O mais importante desta iniciativa é o exemplo. A força de transformação contida no livro é imensa. E de todas as atividades do campo da cultura, a única realmente factível para o presidiário é a leitura, devido ao fator óbvio do confinamento. A leitura é campo fértil para a mudança. Não é por acaso que a Bíblia é o objeto mais caro, mais bem cuidado, mais protegido, ali.

Voltando às iniciativas exitosas, a Penitenciária de Montenegro, no Rio Grande do Sul, criou o ofício de facilitador de livros. Tal atividade é necessária por uma questão de segurança: os presos não podem circular até as salas de leitura para buscar os exemplares.

O que o facilitador faz? Enche uma caixa de feira com livros e roda a penitenciária à procura de leitores. Devido à presença dos facilitadores, quase todo o acervo está emprestado. E o melhor: a cada três dias no ofício, um dia a menos na prisão, como remissão de pena. Isso é exemplo.

E como não é fácil, é necessário facilitar: convidem os bibliotecários, especialistas em leitura e responsáveis pelas inúmeras iniciativas já existentes no país no campo do livro no mundo prisional para participar. Por quê? Porque é um bom exemplo. Porque os brasileiros querem ajudar. Porque todos querem participar de uma possibilidade de transformação concreta que a leitura nos presídios proporciona. Façam deste bom exemplo uma ação comunitária, pública, participativa. E confiram os resultados. Será um incêndio de transformação literária, humana e cidadã. Querem apostar?

 

paulo1

Mora na biblioteca do escritor o segredo de sua obra

Escrevi este artigo para o Jornal O Globo ao descobrir que toda a biblioteca de Paulo Mendes Campos foi vendida. Para os não assinantes, abaixo, o texto:

Afonso Borges – Especial para O GLOBO

Uma biblioteca é fruto do gosto de uma vida. É construída dia a dia, pensada, lida, sentida. Os livros vão se encaixando nas prateleiras como gomos de romã, separados entre carne e semente. Separa-se carne e semente? Como? Não há como. Mas os herdeiros assim o fazem, cuidadosos na dispersão, na dissolução da memória, do conjunto. Aqui pensando na família de João Cabral de Melo Neto que fez evaporar a sua biblioteca em minutos, por quase nada. Ou de tantos outros, desnecessário citar.

Em outra ponta, os herdeiros têm lá sua razão. Normalmente são práticos, amorais: enquanto seu pai, ou mãe, moraram em grandes espaços, feitos para caber seus livros, eles moram em apartamentos menores. Usualmente, são vários, três, quatro, cinco filhos. Mal se cabem, em família. Após o enterro, o acervo vira um elefante branco. O que fazer daquelas centenas de livros? Nem sabem quantos são, como vieram, se fizeram, ou foram comprados, presenteados, quanto valem. A memória difusa engana. O que fazer?

Aí entra o Estado Brasileiro e a precariedade histórica. Não existe política de Estado para se preservar a memória literária brasileira. Pergunto: e se D. João VI não tivesse embuletado nas caravelas todo o acervo literário de Lisboa em uma nau em sua fuga para o Rio de Janeiro, em 1810? O que seria da Fundação Biblioteca Nacional, objeto de vergonha nacional, hoje, dada a sua decadência e descaso? Atenção: o Brasil tem hoje a sétima maior biblioteca do mundo e a maior da América Latina. Não é pouco.

Participei, a convite de José Eduardo Agualusa, do II Festival Internacional de Literatura de Óbidos, o Fólio, em Portugal, conduzido olimpicamente por José Pinho. Ouvi, de João Soares, ex-ministro da Cultura de Portugal e filho de Mário Soares: “Uma das maiores vergonhas que sentimos foi a fuga de D. João VI para o Brasil, com o nosso maior tesouro: 60 mil livros”.

Agora, no meio do artigo, confesso: comprei, sem ter como pagar direito, todos os livros que Carlos Drummond de Andrade presenteou, em primeira edição, a Paulo Mendes Campos. Um bom e responsável negociante, Gilvaldo, me ofereceu todos os 17 livros que comprou de um familiar. Todos autografados. Um pedaço da memória brasileira. O que pensar? Ofereço aos leitores uma das dedicatórias: “Meu caro Paulo, Não é preciso esperar a vinda do Fernando ou do Otto (o primeiro terminava o filme que andava fazendo, e o segundo jamais dá as caras) para vir aqui em casa afim de levarmos um bom e tão atrasado papo. Venha quando quiser ou puder que a casa e os corações são seus. Abraço amigo de seu velho, Carlos. Rio, setembro de 73 PS: vai junto um livro de que recebi alguns exemplares e que, pondo a vergonha de lado, passo às suas mãos.”

Pergunto ao além, ao falecido e querido José Maria Cançado, autor de “Os sapatos de Orfeu”, uma primeira, preciosa e corajosa biografia do autor do revolucionário poema “No meio do caminho”, escrito nos anos 20. Atenção: José Maria a fez editar em 2006, apenas nove anos depois da morte dele (Drummond). Ele, Zé Maria, morreu amargurado pela reticente aceitação de seu brilhante relato.

Pergunto aquém, e agora: e você, Humberto Werneck, que inicia uma nova e desafiadora biografia de CDA: o que pensar? Como decifrar esta pedra que, hoje, está no final do caminho? Ou não? Está ainda no meio do caminho? Onde? Entre a casa de Drummond e Maria Julieta, no bairro da Floresta, em Belo Horizonte e seu primeiro trabalho, na Imprensa Oficial de Minas Gerais, na Avenida Augusto de Lima, no centro da cidade? Ou vale o chiste, que supõe ser uma pedra no ureter, no meio do caminho entre o rim e a bexiga? Sabe-se lá. Mas um dia, isso tem que mudar. Afinal, hoje este mesmo livreiro tem 57 joias da literatura brasileira para vender, que pertenceram a Paulo Mendes Campos. Joia que deveria permanecer no conjunto, em uma biblioteca. Para que a memória literária brasileira não seja, como é, hoje, joia rara e banalíssima.

chico

Um almanaque com notícias literárias

No Mondolivro de Afonso Borges, um dia de Almanaque, com notícias breves sobre a produção de diversos escritores e escritoras. Aqui, o texto. Para ouvir, basta teclar na barra abaixo.

Hoje é dia de Almanaque! Vou aqui falar um pouco que sei dos amigos autores e autoras de Minas, Brasil e Portugal. Vamos lá???

Em primeiríssimo lugar, indico o novo livro do jornalista J. D. Vital, “A revoada dos anjos de Minas”. Como uma grande reportagem, o livro conta a história da interrupção das atividades do Seminário Maior de Mariana, ocorrida há 50 anos, e que abalou a imprensa e os seminaristas, então chamados Anjos de Minas. É genial!

O que estará fazendo Paula Pimenta em Nova Iorque, visitando a American Academy of Dramatics Ars? A menos dez graus negativos, faz pesquisas para a quarta temporada da sua série. A personagem Pri vem aí com novas aventuras…

Milton Hatoum ia entregar o novo livro no início deste ano; passou para o final; agora prometeu para o próximo ano…. Mas também… agora em janeiro entra no ar a  adaptação do “Dois Irmão”, minissérie na TV Globo.

Carlos Herculano Lopes coloca o ponto final no seu novo livro, intitulado “Os Cadernos da Minha Mãe”. Deve ser mais uma obra-prima do autor de “Dança dos Cabelos” e “Sombras de Julho”.

Marcos Pedroso e Niúra Bellavinha lançaram livros novos no sábado que passou, engarrafando o trânsito na Savassi.

Thais Guimarães lançou o livro de poemas “Jogo de Facas”, enquanto Carlos Ávila, quietinho no seu blog, “Cultura Pensada”, hospedado no Dom Cultural, continua fazendo o melhor da crítica e crônica literária de Minas Gerais.

Nauro Pelotas inicia a sexta temporada da #expediçãofuscaamérica no dia 08 de janeiro. Ela agora pode ser acompanhada passo a passo, ou roda a roda, num blog que eles vão fazer no jornal O Globo.

Marina Bandeira Klink lança seu segundo livro de fotos da Antártica em fevereiro, em Belo Horizonte.

Adriane Garcia, com “Só com Peixes” e “Nome do Mundo” não é mais uma promessa. É boa poeta, firme e emocionada.

José Santos ganhou um Jabuti por seu maravilhoso livro “A Divina Jogada”, onde ele coloca o pessoal da Divina Comédia para jogar bola. Genial.

Chico Mendonça continua iluminando o domingo com seus texto no jornal Hoje em Dia. É hora de virar livro!

Valter Hugo Mãe encara um exílio literário no segundo semestre para escrever seu novo livro.

Humberto Werneck continua procurando listas telefônicas da Belo Horizonte da década de quarenta para a biografia de Carlos Drummond de Andrade.

E Jaime Prado Gouvea continua a dar de ombros quando lhe perguntam por um novo livro. Pra que? Responde. É só ler “O Altar das Montanhas de Minas” para descobri o motivo.

José Eduardo Agualusa está sofrendo horrores, em uma praia divina, ao sul de Angola, para ter inspiração para o seu novo texto.

E esta coluna só tem um jeito de ser encerrada: com um poema de Manoel de Barros que ontem, dia 19 de dezembro completaria 100 anos:

Rodapé_MondoLivro - Boletim literário na Rádio CBN