Livros para o carnaval, no aniversário de Humberto Werneck

Ao amigo-irmão-amado Humberto Werneck a minha melhor prolfaça. Prolfaça por cima, por baixo, pelo lado. Muita. E o meu presente é o Mondolivro de carnaval, no qual indico o livro de sua autoria, “O Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas” (Arquipélago). Uma pérola de generosidade em prol do bem-falar e melhor escrever.

E a notícia-furim: “O Orangotango Marxista”, novo livro de Marcelo Rubens Paiva. Indico também para as leituras de carnaval:

“Torquatro Neto – Essencial” – Org. Italo Moriconi (Autêntica)

“A Elite do Atraso” – Jessé Souza (Leya)

“Proesia” – Pedro Muriel (Carta Consulta)

“Contos de Imaginação e Mistério” – Edgar Allan Poe (Tordesillhas)

“Vidas Secas” – Graciliano Ramos

Para ouvir, só teclar AQUI.

A.

 

 

 

Lucas Figueiredo finaliza biografia de Joaquim José, que depois veio a se chamar Tiradentes

Em primeira mão, Afonso Borges traz informações exclusivas sobre o novo livro de Lucas Figueiredo: a biografia de Tiradentes. Inclui um audio do jornalista, no qual faz um breve relato. Ouçam, teclando AQUI.

E a dica de livro é “Atitude Empreendedora”, de Mara Sampaio, pela Editora Senac São Paulo. Sensacional.

Ouçam aqui o audio do Lucas, exclusiva para a coluna:

 

Para os Fake News, a fuga de Tiburi é perfeita e sem volta

A filósofa e escritora Marcia Tiburi, sem querer, estabeleceu um novo paradigma de relacionamento com os MBLs da vida. Ao se recusar participar o programa na rádio gaúcha, onde estava presente, de “surpresa” uma de suas lideranças, ela fundou uma nova forma de atuar, politicamente. A recusa ao debate é inteligente e estratégica, porque as falácias e mentiras só se fortalecem se existe um boi de piranha disponível para colocá-las na pauta do dia. E neste caso, quanto mais qualificado, este personagem, mais se beneficiam os que trabalham para confundir.

Vou além: hoje existem os profissionais que trabalham para o estabelecimento de um ambiente de falácias e falsos cenários. A seu favor, eles têm o óbvio ululante, a meia verdade, a interpretação equivocada. A seu favor, eles tem a velha e boa manipulação. E esta precisa de uma certa credibilidade para se estabelecer. Este é o ponto-chave que a nova postura de Tiburi criou. A recusa em debater com o falso, o mentiroso, o enganador, é um veneno mortal para o próprio veneno destas pessoas. E não é antídoto. É veneno, mesmo. E o nome do veneno é conhecido: Fake News.

Explico melhor: o enganador precisa de referências verdadeiras para construir o discurso da meia-verdade, ou mentira. É o movimento da falácia: a primeira parte do argumento é legítima; a segunda, manipulada, distorcida. É como o leitor de jornal, hoje, que não passa do título. Para quê conteúdo, se o título já diz tudo? É a geração-título-de-jornal. E passível de falsas interpretações, o tempo todo. O Fake News não é uma calúnia que vem do nada. Ele tem como base uma assertiva verdadeira.

Afinal, não fosse assim, porque o âncora do programa da Rádio Gaúcha convidaria 4 homens, no dia seguinte,  para discutir a postura da Marcia, ao se retirar do estúdio? Porque ele escolheu apenas homens? Para lembrar que todos somos machistas, certo? – perguntaria o Gérson, segurando um cigarro Vila Rica. E pior: Marcia está em uma maratona pelo País lançando o livro “Feminismo em Comum – Para Todas, Todos e Todos”, que reinaugura a Rosa dos Tempos, editora criada por Rose Marie Muraro, dedicada à temática feminina. É provocação, mesmo.

Tiburi tem mais é que processar, um por um dos inúmeros enganadores, idiotas de plantão, que recauchutaram seus textos na elaboração do discurso da mentira e do engodo. E tomara que ganhe muito dinheiro. E tomara também que cada centavo que ela ganhe vá para instituições de cunho social. Só para fortalecer quem os MBLs da vida tentam, diariamente, destruir.

Bem, não era nada disso. Escrevi este texto para dar uma boa notícia, dobrada. Marcia Tiburi vem a BH lançar o livro  “Feminismo em Comum” no Dia Internacional da Mulher, em 08 de março, às 19h30, na Cemig. A dobra é que Macaé Evaristo e Áurea Carolina vão participar da mesa, com ela.

Tenham um ótimo dia, mesmo que seja tarde ou noite, na hora da sua leitura. A.

Os 96 anos de Paulo Mendes Campos, onde o amor começa

O aniversário de Paulo Mendes Campos, no domingo, dia 28 de fevereiro não pode passar batido. Mesmo que 96 não seja uma data redonda. Na foto é o primeiro à direita.

Aqui, minha coluna no portal de “O Globo”.

https://glo.bo/2GfWLyM

Abaixo, o texto:

Paulo Mendes Campos, na capicua 69-96, onde o amor começa.

“O resto da vida é aprendizado intensivo para o anonimato, o olvido”, Paulo Mendes Campos, aos 60 anos, referindo-se à sua estréia como poeta, em Belo Horizonte, aos 18, aclamado pela crítica. (*)

A frase, honesta demais, amarga, é uma espécie de premonição. PMC até hoje não tem o reconhecimento devido. Dia 28 de fevereiro é o aniversário deste poeta e cronista belorizontino que repousa no Cemitério do Bonfim, na capital mineira, em túmulo modesto e pouco frequentado. Nasceu ha 96 anos. E morreu cedo, aos 69.

E inspirado nesta capicua, 96-69, onde mesmo o inverso é carregado de melancolia e sarcasmo, tomei a liberdade (ou transgressão) poética de aplicar o contrário em um de seus poemas em prosa mais bonitos, “O Amor Acaba”, que é uma peça imperativa de beleza, de achados bem colocados e incomuns. Mas porque logo o amor que acaba? Sempre me perguntava após cada uma das mil vezes que já o li. Por que tanta e imensa tristeza, agasalhada de trágica beleza? Como ficaria o poema caso o amor, ao invés de acabar, começasse? Ou a beleza está reservada para a tristeza, como dizia o amigo de Paulo, Vinícius de Moraes? Publico, em seguida, o poema original. Leiam e comparem. Será que o inverso guarda a mesma beleza? Vamos lá:

O Amor Começa

O amor começa. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; começa em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde iniciou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e começa o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha começado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e começa o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes começa o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode começar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode começar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor começa na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e começa; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor começa; uma carta que chegou antes, e o amor começa; na descontrolada fantasia da libido; às vezes começa na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes começa em ouro e diamante, dispersado entre astros; e começa nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e começa no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e começa depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não começa e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor começa como se fora melhor nunca ter existido; mas pode começar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e começa o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor começa; a qualquer hora o amor começa; por qualquer motivo o amor começa; para acabar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor começa.

Aqui, o original, “O Amor Acaba”

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

 (*) Extraído do livro ”O Desatino da Rapaziada”, de Humberto Werneck.

No meu tempo, se não fosse meio viado, não pegava ninguém – nem homem

Tem coisa que é de homem, macho, masculino. E coisa que é de machista, covarde, estúpido, assassino. Já fui chamado de viado mil vezes. Aliás, uma pessoa já até disse que tem provas que eu sou viado. Deu 3 nomes de meus parceiros sexuais, que um dia conto. Mas tem a ver. E foi Nirlando Beirão que clareou este assunto numa roda. Disse que ele era meio “delicado”, mesmo. Isso porque na época de Faculdade, quando o feminismo era um pouco diferente do que é hoje. “Se você não fosse meio viado, não comia ninguém”, brincava. E emendava: “nem homem!”, dando aquela gostosa gargalhada. Eu me identifico com o Nirlando. Delicadeza não faz mal a ninguém – nem na relação entre homens. Por sinal, existe, sim, muita delicadeza na relação entre homens – heteros, principalmente.

Uma feminista não precisa abrir mão das delicadezas. Não é incomum, hoje, um homem ficar com a mão estendida, no ar, quando uma mulher sai do carro; ou sair correndo e quando chega do outro lado do automóvel a moça está lá, em pé, se perguntando se o cara enlouqueceu – quando ele só queria abrir a porta para ela. E assim acontece na hora de sentar à mesa do restaurante. Piora quando chega a conta. É machismo pagar a conta inteira ou feminismo dividir? A dúvida fica sempre no ar. Mas é verdade também que o acordo se constrói entre os pares. Mas eu sempre prefiro pagar a conta.

Mas são tempos brutos. Entre as delicadezas mal trocadas, os segredos se dispersam e a confiança não vem. Se vem, homem-mulher fazem um pacto, nem sempre bem resolvido. Ou se é resolvido, é o espelho do amor romântico, com promessas e juras eternas, fidelidade e tradição, muita tradição. Vejam, mesmo com tanta beligerância, nunca se casou tanto! Confiram a agenda das pousadas e hotéis em Trancoso, na Bahia.

Enquanto isso, o simulacro. E a confusão entre o comportamento dito “masculino” e “feminino” na abordagem afetiva. Uma coisa é assédio e outra, cantada. Há quem confunda as duas. Este jogo de conversas das mensagens via celular, a grande maioria das vezes compartilhada carinhosamente, entre os casais, pretendentes ou namorados é do campo da cantada. Outra coisa é o o assédio real, estúpido, enganoso. O assédio que termina, na maioria das vezes, no hospital ou no cemitério. Assédio é sinal de violência. Cantada, não.

E é neste ponto que os argumentos acabam. Não me venham com percentuais em mercado de trabalho, nos índices de suicídio, nas classificações entre profissões. Nada existe frente a um feminicídio. E vou ao conceito, para ficar bem claro: “O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.” (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher, Relatório Final, CPMI-VCM, 2013). Leiam “Maleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras”). Ali está a prova que a Inquisição foi inventada pela Igreja para matar mulheres orgásticas. E Rose Muraro morreu dizendo isso.

O que se tem a dizer, ao listar os milhares de casos onde o homem mata a mulher? Mata, mutila, trai, engana, estupra, destrói uma vida, arranca a alma do corpo – mesmo que ela continue viva? Como mensurar, com argumentos ou até tratamentos médicos, a infinita maldade de um estupro? Só se pode comparar com a tortura. Se é que cabem comparações. Assim, o que se tem a dizer? O que se tem a dizer para as mulheres, feministas ou não, na tábula da vida e da morte? Quem mata quem? Quem trucida, violenta, arrebenta? Pior: quem pratica, com crianças, a violência maior da humanidade, a pedofilia?

Nós, homens, não temos nada a dizer. Só a aprender, diariamente. E responder, com humildade e sabedoria, a cada fala feminista ou feminina. Temos séculos de maus tratos a compensar.

Afinal, quem é que sabe desta vida?

Ouçam, na @RadioBandNewsBeloHorizonte, a coluna com o audio deste texto. Só teclar AQUI.
Perdemos o talento, a sensibilidade, o humor fino e a permanente alegria de Flávio Henrique. Perdemos mais: esta foi uma derrota política. Perdemos um cidadão combativo, consciente e esclarecido. Não estava na presidência da Rede Minas por acaso. Sua perda também é uma vitória da barbárie. A Febre Amarela, em seu estado silvestre, já estava controlada há décadas. E agora, o medo aumenta: a outra batalha é impedir que a urbana retorne – esta sim, erradicada desde 1942. Flavinho morre assim, como a letra de uma canção de protesto, pedindo cuidado com as pessoas, com os amigos, com o meio ambiente (logo ele, que amava tanto a natureza). Flavinho morre-não morre. Estará conosco no ambiente dos sonhos, da música, ao lado de outros que assim viveram, como Fernando Brant e Veveco.
Da minha parte, perco o pivete que me seguia em Nova Almeida, nas noites de viola, dividindo a madrugada com Heloisa Camara Pimenta Campos, Rodrigo Carneiro e tantos outros; anos depois, o estagiário que me acompanhou no início do Sempre Um Papo. Quem agora vai contar as histórias malucas dos telefonemas de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola que ele atendeu? Mais tarde, a companhia do vizinho no Retiro das Pedras, seu primeiro casamento e filha; e agora, novamente nossos caminhos se cruzaram, na sua brilhante trajetória como Gestor da Rede Minas. Nosso último encontro foi há duas semanas, em um jantar privado. Conversamos muito e sentei ao seu lado, na mesa. O jantar se alongava e ele queria uma coisa só: voltar pra casa rápido, para estar com sua família.
Aqui, neste espaço inodoro e asfixiante do Facebook, centenas e centenas de pessoas manifestaram seu carinho e amor por Flávio Henrique, na forma de orações. Hora de transportar esta energia boa para sua família, para que tenham força e coragem para enfrentar os duros momentos que virão. Força, fé e confiança no mistério que nos rege.
Adeus, Flávio Henrique. Ou até já, afinal, quem é que sabe desta vida?
A.

Com Drummond e Nava, 2018 começa bem para a Cultura Mineira

Há mais de 20 anos rebola freneticamente na ALMG, a tramitação do Plano Estadual de Cultura. Nos corredores, a notícia era sempre a mesma: não vale a pena mexer com isso, não dá voto, é complicado. Até o deputado Bosco, que já havia presidido a Comissão de Educação, encarar a Comissão de Cultura e cumprir o passo a passo legislativo para o dia de hoje acontecer. Foi sancionado, pelo Governador Fernando Pimentel, o Sistema Estadual de Cultura, o Sistema de Financiamento à Cultura e a Política Estadual de Cultura Viva. Não é pouco.

E é bom ouvir Ângelo Oswaldo abrir os campos desta caixa, mostrando os inúmeros benefícios da sanção da Lei. Em especial, informar do pleno funcionamento do Fundo Estadual de Cultura. Este sim, capaz de chegar aos quatro cantos de Minas.

É bom ouvir Fernando Pimentel invocar Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Receita de Ano Novo”, dizendo que devemos fazer por merecer um novo ano, sempre.

Bom ouvi-lo falar do tempo lógico (ou ilógico) dos mineiros, citando Pedro Nava. Em especial, o trecho de “Baú de Ossos”, onde Nava invoca uma trama no caminhar pela Rua da Bahia. Nosso andar, sim, é mais vagaroso. Mas é permanente, contínuo, atento. Bom ouvir um Governador citar de cor trechos de Pedro Nava. Seus seis livros de memórias são a chave do saber mineiro. Sua leitura é obrigatória.

Melhor ainda é ouvir o Governador de Minas Gerais falar de continuidade. Falar dos que o antecederam, da importância deste caminhar, da presença e participação de cada um deles, ao longo destes 20 anos, na solenidade de hoje. No meio da platéia que lotou o Salão Principal do Palácio da Liberdade, o bibliófilo Amílcar Martins foi lembrado como Secretário de Cultura, na gestão do PSDB. A empresária Ângela Gutierrez foi convidada para o palco, e lembro que ela ocupou brilhantemente a Pasta na Gestão de Newton Cardoso. Ao seu lado, a musicista Berenice Menegale, que também foi titular, em gestão de outro Partido. Quem outro, em tempos beligerantes, faria isso?

Melhor ainda é estar entre tantos bons, naquela sala. Gente que fez e faz a Cultura em Minas, há tantos e tantos anos. A boa gente da Produção mineira que agora tem uma legislação clara e viva que orienta o funcionamento de todo o sistema estadual de cultura.

Em 15 de janeiro, 2018 começou bem para a Cultura Mineira

Começou com o poema de Drummond, citado por Fernando Pimentel:

Para ganhar um Ano Novo 

que mereça este nome, 

você, meu caro, tem de merecê-lo, 

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 

mas tente, experimente, consciente. 

É dentro de você que o Ano Novo 

cochila e espera desde sempre.

A.

Quer saber mais, leia aqui:

 

Governo de Minas Gerais aprimora regras de financiamento à cultura

Governador Fernando Pimentel sancionou Projeto de Lei que cria o Sistema Estadual de Cultura; entre as importantes novidades, mecanismo visa ampliar o acesso aos recursos de incentivo e fomento, diminuir a burocracia e descentralizar os recursos, alcançando todo o estado

 

A partir de hoje Minas Gerais passa a ter novas regras de financiamento à cultura. As mudanças significativas partiram de demandas da sociedade organizada e visam facilitar consideravelmente o acesso aos mecanismos de incentivo e fomento, ampliar recursos, diminuir a burocracia, melhorar prazos, descentralizar e democratizar os recursos. O Fundo Estadual de Cultura, importante via de fomento a projetos culturais, terá sua verba aumentada e também passa a aceitar a inscrição de pessoas físicas. Todas essas importantes novidades foram oficializadas nesta segunda (15) pelo governador Fernando Pimentel e pelo secretário de cultura Angelo Oswaldo, durante cerimônia de sanção do Projeto de Lei nº 23.874, que institui o Sistema Estadual de Cultura, o Sistema de Financiamento à Cultura e a Política Estadual de Cultura Viva.

São várias as mudanças implementadas. Entre as principais, destacam-se:

  • Um mecanismo foi criado para que parte dos recursos de isenção fiscal seja destinado ao Fundo Estadual de Cultura, promovendo um incremento no orçamento destinado a este mecanismo. O FEC atende a projetos que historicamente têm dificuldade na captação de patrocínios, o que também ajuda a democratizar o acesso aos recursos públicos voltados à cultura;
  • O Fundo Estadual de Cultura (FEC) passa a acolher projetos de pessoas físicas, uma das grandes reivindicações da sociedade civil. O objetivo é descentralizar os recursos, permitindo que os benefícios cheguem ao alcance de todos os territórios de Minas Gerais;
  • A lei permitirá o fluxo contínuo para a apresentação dos projetos, bem como sua análise e captação dos recursos, eliminando os prazos restritivos do incentivo fiscal. Desta forma, o edital tem duração ao longo de todo o ano;
  • Os percentuais das contrapartidas para as iniciativas de isenção fiscal serão diferenciados de acordo com o perfil do projeto de incentivo. Propostas de apelo acentuadamente mercadológico e comercial passam a ter percentuais maiores de contrapartida do incentivador, enquanto projetos de caráter eminentemente cultural passam a contar com percentuais mínimos.

Além de incentivar e coordenar as atividades culturais em Minas Gerais, a lei vai permitir a desconcentração territorial e setorial dos recursos (materiais, financeiros, humanos, entre outros) e equipamentos culturais. Por meio dos novos mecanismos de incentivo (isenção fiscal), os proponentes de projetos aprovados podem obter patrocínio de contribuintes de ICMS até o montante de isenção fixado para o ano. Por meio do fomento (verba direta), o Fundo Estadual de Cultura (FEC) abrirá diferentes editais para contemplar as diversas atividades e regiões do estado, inaugurando uma nova fase no apoio às ações culturais.

O secretário Angelo Oswaldo destacou que as novas regras irão democratizar o acesso e ampliar a captação de recursos destinados ao incentivo financeiro e desenvolvimento de projetos, até então concentrados na capital mineira e região metropolitana. “Havia uma concentração em algumas atividades e em determinados patrocinadores, bem como em algumas áreas geográficas. A partir de agora, o recurso do Fundo vai irrigar democraticamente todas as regiões desse vasto estado, sendo que grande parte do território mineiro, quase 80%, não tiveram acesso aos mecanismos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura”, disse Angelo Oswaldo. O secretário destacou ainda que a partir de agora o FEC terá uma forma específica de captação de recursos. “As pessoas vão saber exatamente onde o dinheiro vai ser aplicado, como, por que e como. O Fundo tem regras claras e muito transparentes para essa destinação”, complementou.

Em seu discurso, o governador Fernando Pimentel relembrou a importância de os governos unirem esforços para investirem em políticas estruturais para avanço do setor cultural. “Estamos celebrando juntos uma coisa muito importante, que é a continuidade da política cultural em Minas Gerais. É o que isso simboliza. Vem um governo e faz a lei, vem outro e aperfeiçoa, vem um terceiro e corrige, mas o importante é que todos estão apontando na mesma direção. E o estado se fortalece e o nosso setor cultural se fortalece cada vez mais”, reforçou Fernando Pimentel.

Estiveram presentes na cerimônia o deputado estadual Bosco, representando a Assembleia Legislativa de Minas Gerais; o prefeito de Itapecerica, Wirley Rodrigues Reis, representando a Associação das Cidade Históricas de Minas Gerais; o secretário municipal adjunto de Cultura de Belo Horizonte, Gabriel Portela, além de inúmeros representantes do meio cultural, investidores, artistas, apoiadores e empresários do setor.

Aperfeiçoamento

Caberá ao Sistema Estadual da Cultura ser articulador, no âmbito estadual, das políticas públicas de cultura, estabelecendo mecanismos coordenados ou conjuntos de gestão compartilhada entre o Poder Público e a sociedade civil.

Já ao Sistema de Financiamento à Cultura (SIFC) caberá ampliar e descentralizar os recursos disponíveis, principalmente via Fundo Estadual de Cultura, permitindo repasses fundo a fundo, garantindo maior autonomia local na gestão das políticas municipais de cultura. Além disso, será possível simplificar os processos de contratação e prestação de contas.

Política Estadual de Cultura Viva permitirá ações na área cultural em benefício de povos, grupos e comunidades em situação de vulnerabilidade social e com reduzido acesso aos meios de produção.

 

Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

Assessoria de Comunicação

asscom@cultura.mg.gov.br

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O poeta do Barroco, Affonso Ávila, “Homem ao Termo”, Novent’Anos em janeiro

Affonso Ávila nasceu em 1928, em Belo Horizonte. Modernista, moderno, concreto, rebelde, poeta. Ensaísta, gestor público, editor e criador da revista  “Barroco”, tema de sua vida como pesquisador. Autodidata, recebeu da UFMG o Doutor Honoris Causa. Foi o elo de ligação de Minas e os paulistas Décio Pignatari, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e toda uma geração que criou a Poesia Concreta. Discreto, humilde e falante (só entre os amigos), o especialista em Barroco Mineiro nos deixou uma poesia que já nasceu pronta para a eternidade. Não foi à toa que Paulo Leminski largou a batina e veio a pé de Curitiba – reza a lenda – para participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963, em Belo Horizonte, onde conheceu os “concretos”.

Em 19 de janeiro, sexta-feira, Ávila estaria, se vivo fosse, em uma reduzida comemoração pelo seus 90 anos. É hora do Brasil reconhecer neste um dos mais inteligentes, sensíveis e brilhantes poetas. Aqui, um breve resumo de sua vida. Breve, mas necessário. Mas há que se ler Affonso Ávila. Todos nós, mineiros, e brasileiros. Leiam alguns poemas no blog “Escritas.org”.

E quem quiser comprar o livro “O Homem ao Termo”, com a sua poesia reunida (1949-2005), publicado pela Editora UFMG é só teclar AQUI.

AFFONSO ÁVILA nasceu em Belo Horizonte, em 1928. Desde 1951 vem contribuindo para o enriquecimento da cultura nacional, participando da revista “Vocação”, organizada por ele juntamente com a esposa, a poeta e crítica Laís Correia de Araújo, Rui Mourão, Vera de Castro e Fábio Lucas. Em 1953, publica seu primeiro livro de poesia, “O Açude”, seguido de  “Sonetos da Descoberta”. Simultaneamente atua na imprensa, no Diário de Minas e Estado de Minas. Entre 1957 e 1962 funda nova revista: “Tendência”, com Fábio Lucas e Rui Mourão. Em 1961, publica “Carta do Solo”; em 1963, “Frases-feitas”. Desenvolve atividade intensa como pesquisador, ensaísta, poeta. Aproxima-se do concretismo e colabora com a revista “Invenção”. Projeta-se como um poeta de vanguarda em 1963, por incumbência da Universidade de Minas Gerais. Como poeta produz ainda “Código de Minas”, “Cantaria Barroca”, “Discurso da Difamação do Poeta”, “O Belo e o Velho”, “A Lógica do Erro”, “Cantigas do Falso Alfonso El Sábio”, “Homem ao Termo”. Simultaneamente, dedica-se ao ensaio com “Resíduos Seiscentistas em Minas”, “O Poeta e a Consciência Crítica”, “O Lúdico e as Projeções do Mundo Barroco”, “Iniciação ao Barroco Mineiro”, “Minor – Livro de louvores”, “Cartas de Aluvião”, “Circularidade da Ilusão”. Criou a revista “Barroco” em 1967. Foi também um dos fundadores do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG.

Trabalhou nos projetos “Circuito do Ouro”, “Circuito do Diamante” e “Circuito Campo das Vertentes” como diretor de estudos históricos da Fundação João Pinheiro, deixando ampla documentação sobre a arte e o patrimônio histórico/arquitetônico de Minas Gerais. Foi também diretor e conselheiro do IEPHA/MG. Participou ativamente do tombamento pela Unesco da cidade de Ouro Preto como Patrimônio Mundial. Recebeu inúmeros prêmios entre os quais destacam-se: dois prêmios Jabuti de Poesia pelos livros “O Visto e o Imaginado” (1991) e “O Falso Alfonso El Sábio” (2006). Recebeu ainda o Prêmio FCW de Cultura (2007), o prêmio conjunto de sua obra do Governo de Estado de Minas Gerais e a medalha Mendes Pimentel pela doação do acervo (livros e documentos) ao Centro de Estudos Mineiros da UFMG. 

Carlos Heitor Cony e o legado de uma amizade

Ali, pelos meados da década de 80, Carlos Heitor Cony era tido como um autor recluso, que não gostava de fazer lançamentos de livros, nem autógrafos. Mas é importante puxar pela memória: existem dois “Conys”. Um que começou em 1956, com “O Ventre”, seguindo da avalanche de livros “A Verdade de Cada Dia” (1957), “Tijolo de Segurança” (1958) , “Informação ao Crucificado” (1961), “Matéria de Memória” (1962) e “Antes, o Verão” (1964), “Pessach, a Travessia” (1967) e “Pilatos” (1974). Este é o Cony perseguido pela Ditadura, cronista, roteirista e… desencantado com a literatura. Dizia-se morto para os livros. Em 1995, estimulado por Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, surge o Cony versão dois, que produziu a maravilha de livro “Quase Memória” (1995), seguido de outra avalanche de publicações e, principalmente, o que mais o estimulou: a reedição dos livros antigos.

Eu confesso: eu o enganei. Em 1995, depois de várias tentativas de trazer o Cony ao “Sempre um Papo” Luiz me ajudou dizendo que seria uma palestra em um colégio – no caso, no tradicional Colégio Santo Antônio, em BH. Foi, fizemos um evento memorável e… consegui quebrar o gelo e alergia a lançamentos de livros. Mas não passou batido: “você me enganou” – ele disse. Mas foi bom. Daqui pra frente, vou aceitar os seus convites”.

Daí por diante, foram várias as participações, debates, eventos, em diversas capitais brasileiras, comigo. Lançamos livros, e nos divertimos muito -principalmente isso: viajar com Cony era diversão na certa. Uma vez, o autor “Romance sem Palavras” fez, com Artur Xexéo, o programa “Liberdade de Expressão”, pelo celular, no saguão do aeroporto da Pampulha. Um do lado do outro, separados por uma pilastra. No ar, Cony inventou que estava no Rio; Xexeo, acostumadíssimos com as suas pilhérias, disse que estavam em SP. E aí fizeram o primeiro programa, morrendo de rir, um na frente do outro.

E as datas? E as efemérides? E as reuniões de bastidores entre os presidentes da República? Cony simplesmente inventava um encontro, um momento decisivo que ele havia participado. E dizia, com a cara lavada que não era mentira. Era apenas “imprecisão histórica” – o que fazia Artur Xexéo dar aquela sorriso divertido, ao contar esta história. No Sesc Vila Mariana, também, ao lado de Heródoto Barbeiro, no lançamento do livro “Liberdade de Expressão”, ele se confessou alguém que deu certo por acaso. “Afinal, alguém que não consegue falar a palavra “arôpoto” pode dar certo na vida?” E falou, por 3 vezes “arôporto” – lembrando ao presente que sabe escrever certo (rs…).

Mas o momento um dos momentos que mais agradeço – que mostram a amizade na qual entabulamos estas duas décadas de vida, foi em 2006, no Teatro Nelson Rodrigues (atual Teatro da Caixa), no Rio de Janeiro. Na tarde do lançamento do livro “O Adiantado da Hora”, morreu seu irmão mais velho, segundo ele, o mais querido. Quando fiquei sabendo, logo comecei a tomar as providências de cancelamento do evento. Foi quando recebi o seu telefonema, dizendo só isso: “vou sim, por respeito a você e aos leitores que lá estarão. Depois, vou para o velório”. Com esta inesquecível frase, fruto de uma amizade e de um mútuo respeito, me despeço do amigo que um dia eu enganei. Para o bem da literatura, para o bem de todos que o ouviram, um dia falar. Obrigado por seu tempo, conosco, Cony. A sua velocidade da fala, do escrever, do viver, foram compensadas pelo seu legado: livros, livros, e livros. Obrigado.

Confesso que, há 30 anos, eu matei Henfil.

Neste País sem memória, passa sem homenagens os 30 anos de morte de #Henfil, riscado no dia de hoje no calendário da história: 04 de janeiro, um dia comum. Então vai a minha, solitária: VIVA HENFIL! Cara, o Brasil te deve tanto, mas tanto, que não dá para compensar em uma vida.

Henfil,  o Brasil tem a dívida de não ter te proporcionado o cuidado necessário no tratamento da hemofilia; depois, por tê-lo contaminado, durante uma transfusão de sangue em um hospital público, com o vírus da AIDS; na sequência, some na tábula do dever a irresponsabilidade da ausência de cuidado adequado durante a doença, que o vitimou em 1988. O Brasil deve também o bônus da perseguição política a que foi submetido durante toda a ditadura. Não há pagamento para isso. Você morreu antes de viver o momento seguinte que seria, naturalmente, de glórias e homenagens.

E Belo Horizonte deve ainda mais. Nascido em Ribeirão das Neves, Henfil cresceu em BH, em uma funerária que ainda existe, na região dos Hospitais. Formou-se na capital de Minas, onde começou sua carreira, antes de participar da natural diáspora a que todos os artistas mineiros são obrigados a viver.

Em contrapartida, você nos deu muito mais do que um cartum, um desenho. Você nos deu um estilo de interpretação do cotidiano, estruturado no humor ácido e inteligente. Nos deu arte, da melhor qualidade, baseada no conceito pleno de humanidade que os seus personagens – todos brasileiros – nos emprestaram. Você faz uma falta tremenda, Henfil. Mas não sei se você seria feliz com tanta beligerância. Com tanta desumanidade. Com tanta ignorância.

Sendo assim, Henfil, como eu não posso pagar a dívida pelo Brasil, assumo: eu sou o culpado por sua morte. O culpado sou eu. Eu matei Henfil. E fim.