Os Ledores Voluntários – Quando a voz se Torna Letra

Ler para cegos é uma experiência inesquecível. Você sai de casa pensando que vai doar alguma coisa para as pessoas: o seu tempo, a sua disponibilidade, a sua voz. Tolice. Chega lá, faz a leitura e recebe de volta uma energia gigantesca, potente, entregue na forma de gratidão, inteireza e atenção. Em todo o Brasil, bibliotecas públicas tem o setor de braille. Na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte, ele existe há mais de 50 anos! E nele, um fantástico projeto de ledores voluntários. Em outros estados, como Santa Catarina, ele tem nomes diferentes, como Ledores Solidários.

A advogada Carolina Dini, que trabalha na plataforma Sympla, é uma destas voluntárias. Deixou aqui um relato comovente: “Conheci o Projeto de Ledores do Setor Braile da Biblioteca Luiz de Bessa em 2015. Ele consiste, basicamente, em doar uma hora do seu tempo para ler para pessoas com deficiência visual que estão ali para estudar para concursos públicos. Então, durante sessenta minutos, você tem a honra de fazer as vezes dos olhos de alguém! No primeiro dia tive a oportunidade de ler para um voluntariado que fixou tão atentamente a atenção no que eu falava que cheguei a me comover. Não estava preparada para aquilo, pois nesse mundão de tantas distrações são raras as pessoas que realmente estão dispostas a escutar com tanta vontade. Só tenho a agradecer à Biblioteca, por todas as sementes que plantou em mim” (Carolina Dini).

Acontece que a grande maioria destes projetos anda precisando de ledores voluntários. Os deficientes visuais estão ali, disponíveis, precisando de pessoas que desejam dar, e receber. Inscrevam-se, participem, é um apelo, sim. Mas um apelo à própria experiência, que se transmuta em vivência, inesquecível. Procure a bibilioteca mais próxima, informe-se. Seja um Ledor Voluntário. E solidário.

Abranches indica a grande transição do século XXI em livro

“A Era do Imprevisto – A Grande Transição do Século XXI”, do sociólogo Sérgio Abranches, está na pauta do dia, no Brasil e no mundo. Afonso Borges comenta o livro e destaca, em especial, a defasagem entre o que o autor classifica de “desencontro crescente entre a sociedade digital e a política analógica”. Sergio estará no Sesc Santo André, no dia 24 de maio e em BH, no dia 30. Ouçam a coluna Mondolivro, da BandNewsBeloHorizonte, teclando AQUI.

Na obra, Abranches aponta a conturbada transição que o mundo vive. Os modelos econômicos que não conseguem mais prever o que vai acontecer na economia. A estrutura produtiva que está em metamorfose. As análises políticas que erram cada vez mais. Os modelos meteorológicos que não conseguem prever secas, enchentes, nevascas, ondas de calor. O livro é uma análise dessa longa transformação. A indagação se dá em torno de três revoluções: a socioestrutural, que atinge todo o planeta e tem efeitos sobre a estrutura social, econômica e política das sociedades; a científica e tecnológica, que se dá com o surgimento de novas fontes de energia e com a digitalização da sociedade; e a climática, associada ao aquecimento global. Sem procurar respostas definitivas, Abranches dialoga com incontáveis pensadores contemporâneos para desvendar os rumos de nossa época, tão imprevisível quanto fascinante. Uma edição da Companhia das Letras.

 

 

 

 

O BiblioSesc é uma máquina de incentivo à leitura no Brasil

A experiência do caminhão BiblioSesc volante é uma máquina de incentivo ao hábito da leitura. E com uma novidade: todos os caminhões são produzidos em Sabará, pela Real Furgões. Já são quase 90 unidades. Ouçam a coluna de @AfonsoBorges, na @BandNewsBeloHorizonte. E a dica hoje é a Oficina de Leitura de José Eduardo da Silva Gonçalves. Tecle AQUI para ouvir.

 

Um texto para São Jorge de Rosas e Livros

Teclem aqui para assistir o vídeo da festa de “São Jorge de Rosas e Livros”:

Abaixo o texto do blogo em “O Globo”.

O que determina se um livro é bom, ou ruim, de verdade? Se o livro é bom, os elogios são fartos, e poucos defeitos são apontados. O livro realmente bom tem uma estrutura interna que organiza conteúdo, andamento, ritmo e peso – peso ou leveza, isso depende do ambiente que o autor quer conduzir o leitor. O livro bom tem este problema – te pega desde o início, desde a primeira página e estabelece uma relação pouco cordial com os personagens. Preso na trama, você, leitor abduzido, vai para o trabalho e fica incomodado com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Ou pior, como nos livros de Proust, fica imerso no ambiente da época, mastigando a comida daquele restaurante, escondido atrás da cortina onde aconteceu o crime, trancado no armário enquanto o casal trava um diálogo intenso e triste.

Mas o livro bom às vezes engana. Ele provoca um tédio nas primeiras vinte ou trinta páginas, enredando uma história que pretender ser outra, como uma onça rondando a sua presa, sentindo a posição do vento, para atacar. Quando salta, você, leitor, está irremediavelmente perdido, no meio da história e das histórias, envolvido até o pescoço.

O livro bom sabe encadear a sequência dos personagens, sejam eles muitos, como nas novelas, ou poucos e densos, como em alguns romances. Ele, o livro danado de bom, faz o leitor sentir o cheiro do perfume da moça, o suor do moço correndo, ou parado, morrendo de medo; faz o leitor ficar grudado no teto em uma cena de suspense ou terror, ou doido de tesão, como fez alguns tons de cinza com a grande maioria das leitoras brasileiras.

Jorge Amado só parava de escrever no meio de uma cena. O livro bom tem que ser teatro. A dramaturgia do enredo tem que calcular, de uma forma quase mediúnica, a hora que o leitor vai parar para descansar. De vinte em vinte páginas? Trinta? Quarenta? Sei lá…. mas o escritor tem que saber encadear o enredo de uma forma quase angelical, ou diabólica, para fazer com que a sua vítima, o leitor, volte, no dia seguinte, e grude no livro até dormir – ou não dormir, de preferência.  Quantas vezes vocês já viraram a noite grudado em um livro bom? Eu já fui quase atropelado, andando pela rua lendo, um monte de vezes. E não é atoa que tenho, desde cedo, vista cansada.

O bom livro sabe dosar os usos da palavra “que”, mistura frases curtas com longas, dependendo da situação, entende que a concordância deve ser usada a seu favor, e não ao livre saber da invenção. O bom livro é, antes de tudo, bem escrito. Com a mágica e o tempero que o livro bem escrito deve usar, à exaustão: o tempo.

Bem, acabei não dizendo o que é um livro ruim. Mas acho que todo mundo entendeu. Isso tudo para dizer que hoje é 23 de abril, dia de São Jorge, padroeiro das letras, iluminado, para sempre, por Miguel de Cervantes e William Shaskespeare. Na tradição catalã, o São Jorge de Rosas e Livros.

Torcer para o Galo é…

A visão mais deslumbrante que tenho da infância foi aos seis anos, quando entrei no Mineirão lotado, para assistir o Clube Atlético Mineiro (CAM) jogar. Era noite e as luzes intensas do Estádio pareciam mostrar o rosto de cada um dos quase cem mil torcedores. Ali começou o amor pelo Galo. O amor por um clube muito maior que ao esporte. A natureza dos torcedores do meu time é o que mais se assemelha ao amor. A mágoa, a tristeza e a dor sempre são superadas frente a um novo desafio.

A notícia que o Galo lidera o ranking nacional da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) é uma maravilha. Mas só confirma que torcer pelo Galo é mais que uma vitória, apenas uma vitória, ou mesmo vencer um campeonato qualquer.

Ser atleticano é torcer pela camisa com o vento contra, como disse o querido Roberto Drummond. É fazer um sujeito como Ricardo Galuppo, talentoso jornalista, passar boa parte da vida pesquisando para escrever um livro sobre a história do time. É melhorar a cada dia o seu texto por pura paixão, como faz Fred Melo Paiva. É vibrar com a intensidade de um vulcão como pratica Chico Pinheiro. É ser amada e amável, por natureza alvinegra, como Paula Rangel. É torcer letra e música até a raiz da palavra para compor uma música linda para o nosso time, como fizeram Vander Lee e Celso Adolfo.

Ser atleticano, ser torcedor do Galo é saber viver todos os minutos do seu tempo com o coração na garganta, como ensinou o bom Alexandre Kalil, que tem o Galo no sangue, herdado do seu pai, o inesquecível #EliasKalil. Ser atleticano é torcer somente por um time, no mundo: Clube Atlético Mineiro. Uma vez, até morrer. (Afonso Borges)