As guerras que o Brasil lutou, de 1864 a 1964, em exposição e livro, no IMS – Rio de Janeiro

Bastam uma exposição e um livro para acabar com o papo furado de dizer que brasileiro é um povo pacífico. E mais: contribui para entender a beligerância que rola hoje no País.  Corram no Instituto Moreira Salles – IMS, no Rio de Janeiro, e vejam a exposição “Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil”, em cartaz entre 14/12 e 25/02.  Depois São Paulo. Belo Horizonte, que pena, não se sabe quando virá, ou se virá: a sede do IMS, num lindo prédio na Av. Afonso Pena, foi fechado, há anos e emprestado para a Fundação Clóvis Salgado. Uma pena, afinal, foi em Minas Gerais que nasceu o seu fundador, o Embaixador Walther Moreira Salles. Ouçam AQUI o comentário de Afonso Borges na Rádio BandNews Belo Horizonte, no programa Mondolivro.

A dica de livro é a edição comemorativa de 20 anos de “A Águia e a Galinha”, de Leonardo Boff, pela Vozes.

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Ao revelar a verdadeira história do Brasil, a UFMG sentou, assim como Leonardo Boff, na cadeira de Giordano Bruno

Uma linha de raciocínio: a ditadura fez de tudo para esconder, a todo custo, e de todos, os verdadeiros acontecimentos durante este período. Este foi o grande legado de Golbery do Couto e Silva, seguido à risca por todos. Máximas como a negação da tortura, da guerrilha, dos mortos e desaparecidos são o lugar-comum. Aí vem René Dreyfuss, descobre e prova a influência do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), uma organização político-militar transnacional que, aliada às elites orgânicas, promove o Golpe de 64. Paralelamente, Heloisa Starling mostra, em “Senhores das Gerais – Os Novos Inconfidentes e o Golpe de 64”, como este modelo se conjurou em Minas, livro lançado em 1986.

Continuando a linha de raciocínio: 2017, Lilia Scharcwz e Heloisa Starling lançam o belíssimo trabalho “Brasil: Uma Biografia”, um braço da pesquisa do Projeto República. Outras partes do corpo são o Memórias da Ditadura e o Memorial da Democracia. Projetos de assombrosa pesquisa sobre a vida recente brasileira do ponto de vista dos fatos reais. Nada de esconder a verdade da história. E que tem como foco principal o suporte ao ensino nas escolas. E isso é tudo que o projeto da ditadura militar não queria, não quis e fez de tudo para esconder. Ali estão as principais discussões e recomendações da Comissão Nacional da Verdade, as violências de Estado, a Justiça de transição, a perseguição aos movimentos negros, indígenas e LGBTs, enfim, a verdadeira história das atrocidades cometidas pela  ditadura brasileira. Um exemplo claro, que faz os militares arrepiarem os pelos dos fuzis são as “biografias da ditadura”, onde todos os atores, como Médici, Figueiredo e Romeu Tuma estão ali, sendo eles mesmos: artífices de uma trama contínua e repressora, que mergulhou o país em dos seus períodos mais terríveis.

De forma extraordinária, também, o capítulo dedicado às “biografias da resistência” revela não somente a forma com qual foram mortos, a maioria sob tortura, os militantes. Mostra também o que hoje fazem os sobreviventes, como os irmãos Edson e Janaína Teles que, com 4 e 5 anos, foram sequestrados logo após a prisão de seus pais, Maria Amélia Teles e César Augusto Teles, do PCdoB. Durante o período de detenção assistiram à mãe e ao pai serem vítimas de sistemáticas violações. Também presenciaram os dois sendo torturados pelo major do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, então comandante do DOI-Codi. Que negou até a sua condenação a existência da tortura.

Finalizando minha linha de raciocínio: o movimento jurídico-militar desenvolveu este viés “contábil” nas prestações de contas do Memorial da Anistia para tentar criminalizar estes que cometeram a heresia máxima do projeto de Golbery que foi contar a nossa verdadeira recente história. Heresia tal que levou, como Leonardo Boff, por descontinar a Teologia da Libertação, a professora Heloisa Starling e os seus colegas de cátedra à cadeira de Giordano Bruno. Mas como uma grande diferença: o inquisidor, no caso, não lustra as botas do Cardeal Ratzinger (no caso de Leonardo), que chegou a se tornar Papa, décadas depois.

E pior: quem montou esta estratégia de fragilizar a universidade pública com o viés jurídico-contábil-policial está anos-luz da genialidade de Couto e Silva. Os orgãos de Controle das universidades são seríssimos. Basta observar as rugas de preocupação do pessoal da FUNDEP, em Minas. E para finalizar: as marcas da agressividade e humilhação da Polícia Federal aos nossos mais inteligentes e respeitáveis dirigentes da Universidade ficarão para sempre. A PF, ao nominar, grosseira e sarcasticamente, a operação de “esperança equilibrista” em equivocada referência à música de João Bosco e Aldir Blanc, cometeu um erro histórico. Um erro que, ao meu ver, com o tempo, será a piada interna que dará início à desconstrução da própria Instituição. Ah, se Henfil tivesse vivo…

Ouçam o meu comentário, acrescido deste longo raciocínio, no Mondolivro, da Rádio BandNews Belo Horizonte. Só teclar AQUI.

Hora de prestar a devida homenagem ao belorizontino mais importante da história. Sabem quem é?

Na coluna de hoje, Afonso Borges joga uma questão importante para as comemorações de 120 anos de Belo Horizonte. Quem será o nascido na Capital mais importante da história? Ouçam a coluna da Rádio BandNews Belo Horizonte teclando AQUI.

Abaixo, um texto complementar, escrito para o Blog do Mondolivro:

Relendo os oito contos de “Velórios”, de Rodrigo de Melo Franco, recebo a notícia, vinda da presidente do Iphan, Kátia Bogea, que o Instituto pode fechar as portas em breve. E vejam: amanhã, 30 de novembro, o Decreto-Lei nr. 25, que regulamenta as atividades do antigo SPHAN comemora 80 anos de promulgação. (Na foto, Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco).

Às vésperas de comemorar 120 anos de fundação, em 12 de dezembro, Belo Horizonte deve a Melo Franco o merecido reconhecimento – afinal, ele pode ser considerado o primeiro nativo ilustre da cidade, porque nasceu apenas oito meses após a inauguração da Capital, em 17 de agosto de 1898.

Mas talvez “ilustre” não seja uma palavra adequada para determinar a importância de Rodrigo de Melo Franco. É muito mais que isso. Arrisco a dizer que é o belorizontino mais importante do século XX. Jornalista, advogado, redator, poeta, contista, ensaísta, historiador, estudioso das artes e dos artistas – foi um escritor completo. Amigo de Aníbal Machado, Milton Campos, João Alphonsus, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Abgar Renault, todos da capital mineira, articulou a aproximação com os modernistas de São Paulo. À frente da “Revista do Brasil”, em 1924, reuniu em torno de si Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Manuel Bandeira, entre outros. Era um tremendo articulador de boas cabeças.

Em 1930, como chefe de gabinete do Ministro dos Negócios da Educação, Francisco Campos, indicou o então desconhecido arquiteto Lúcio Costa para a direção da Escola Nacional de Belas Artes. E em 30 de novembro de 1937, Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde, aprova o projeto de Mário de Andrade e cria o SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). E Rodrigo Melo Franco assume a direção, cargo que só deixaria 30 anos depois, em 1967.  Além de instituir uma legislação para preservar o patrimônio histórico brasileiro, formou uma excepcional equipe de profissionais – pesquisadores, historiadores, juristas, arquitetos, engenheiros, conservadores, restauradores, mestres de obra – para a realização de inventários, estudos e pesquisas e execução de obras de conservação, consolidação e restauração de monumentos. Rodrigo de Melo Franco instaurou um sentimento de preservação e importância do patrimônio histórico brasileiro.

Mas ainda não acabou. Estes 30 anos à frente do SPHAN proporcionou a criação de inúmeros museus regionais e nacionais: o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (1938); das Missões, em Santo Ângelo (1940); do Ouro, em Sabará (1945); do Diamante, em Diamantina (1954); da Abolição, em Recife (1957); o Regional de São João del Rei, (1963) entre outros. Foram restaurados monumentos, pinturas, esculturas, documentos e inúmeros bens protegidos. O Sphan realiza também centenas de programas de treinamento de técnicos, coordena trabalhos de recuperação das instalações do SPHAN, empreende disputas judiciais, se empenha pela sobrevivência institucional da entidade, e se esforça em promover, no Brasil e no exterior, uma consciência nacional de preservação do patrimônio cultural do país.

Além disso, aglutinou dezenas de intelectuais ao seu redor: Oscar Niemeyer, Luiz de Castro Faria, Sérgio Buarque de Holanda, Heloísa Alberto Torres, Vinícius de Morais, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade e Renato Soeiro. Da equipe de profissionais, destacam-se Lúcio Costa, Lígia Martins Costa, Sílvio Vasconcelos, Augusto Carlos da Silva Teles, Alcides da Rocha Miranda, José de Sousa Reis, Edson Motta, Judith Martins, Paulo Thedim Barreto, Miran de Barros Latif, Luís Saia, Airton Carvalho, Edgar Jacinto da Silva, entre muitos.

Durante 30 anos, na direção-geral do SPHAN, Rodrigo consolidou os ideais de proteção e preservação do patrimônio histórico e cultural brasileiro. Após a aposentadoria, em 1967, integrou o Conselho Consultivo do SPHAN, onde permaneceu até sua morte, em 1969, no Rio de Janeiro.

É o ou não é mais importante belorizontino da história do Brasil?

E agora, recebo a notícia sobre a dificuldade pela qual passa o Iphan. É hora de participar. Leiam aqui: http://bit.ly/2nfpezm

Chico Mendonça estreia em livro de contos

O jornalista e escritor Chico Mendonça lançará seu primeiro livro em breve, intitulado “As Horas Esquecidas”, a ser publicado pela Quixote-Dô. Abaixo,  o texto da contracapa, escrito por Afonso Borges. Ouçam a coluna dedicada ao Chico, no Mondolivro da Rádio BandNews Belo Horizonte.

Quando o jornalismo esquece o tempo factual, se distrai e cria, Chico Mendonça aparece de soslaio. Quando a poesia foge ao lugar comum, encanta a todos e a si própria, surge Chico Mendonça, de repente. Simplesmente quando, vem Chico Mendonça e nos surpreende com esta prosa emocionada, emocionante, pronta para ser degustada sem rodeios. 

“As Horas Esquecidas” é o primeiro dos muitos livros que o bom Chico Mendonça ainda vai nos brindar. Seus contos estão próximos da divisa entre o universo comum, ao nosso redor, e a vida, simbólica e intuitiva, quase metafísica. Ao relatar experiências em permanente reflexão, Chico sabe tocar onde a alma descansa. E faz de novo, e de novo, e de novo, até o livro terminar, sem que a gente sinta este seu terminar. Chico sabe fazer as palavras descansarem para toda a gente se agitar.

 Leiam, rápido, ou devagar. É puro deleite. 

Ouçam Afonso Borges no Mondolivro, da Rádio Band News Belo Horizonte, clicando AQUI

O “Papa do Papo”, segundo Humberto Werneck, no “Estado de S. Paulo”

E não é que o Afonso Borges, incansável divulgador da literatura alheia, passou para o outro lado do balcão?

Não, não é assim que se deve dizer.

Incansável divulgador da literatura alheia, o Afonso acaba de instalar-se também no outro lado do balcão.

Ou melhor: com Olhos de Carvão, coletânea de contos lançada pela Record, Afonso Borges está solidificando uma posição que, timidamente, já ocupava no outro lado do balcão.

De fato: Olhos de Carvão está longe de ser a obra de estreia de um autor que, já faz tempo – desde os 18 anos –, vem delivrando escritos seus nas searas da poesia, da literatura infantil e da não-ficção. Tudo, porém, meio na moita, e mais, moita mineira, especialmente densa e enganosa, como se escrever fosse, para ele, habitar de raro em raro um puxadinho de sua atividade principal, a de espalhar por aí boa literatura dos outros.

Difícil, a esta altura, encontrar alguém letrado que ainda não tenha ouvido falar do Sempre um Papo, projeto bolado pelo Afonso Borges, há mais de 30 anos, com o objetivo maior de incentivar a leitura no Brasil. Mas vamos lá, mesmo com o risco de chover no molhado (clichê, apresso-me em dizer, devidamente consignado na página 49 da 2ª edição do meu O Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-comuns e Frases Feitas).

Sua fórmula, tão simples quanto bem-sucedida, consiste em botar sob as luzes alguém que esteja lançando livro relevante, e, com direito à participação do público, entabular um papo ao qual se seguirá sessão de autógrafos. Não há hoje editora brasileira que não queira ter autor seu sob aquelas luzes. Se o Chico Xavier, lá onde está, se é que saiu daqui depois de haver desencarnado, vier a psicografar obra que o mereça, é bem provável que o Afonso Borges mande instalar mesa branca no auditório. E, magnânimo, aceitará que baixe ali, numa versão incorpórea, até mesmo o espírito espirituoso de Millôr Fernandes, que, ainda na versão carne e osso, faltou, sem avisar, ao compromisso que tinha com uma casa apinhada, deixando o anfitrião Afonso no aperto que se pode imaginar.

Nada escapa ao bom faro de quem, nessas três décadas de Sempre um Papo, ao longo de nada menos de 6 mil eventos, provocou a palavra de milhares de autoras e autores, entre eles dois premiados do Nobel, José Saramago e Mario Vargas Llosa. Feito maior, só se o Afonso convencesse (não duvido) o Jorge Mario Bergoglio, codinome Francisco, a se abalar de Roma para um Sempre um Papa.

Mas o assunto, aqui, não é um projeto que, nascido num boteco de Belo Horizonte em 1986, tem hoje abrangência nacional – já acendeu suas luzes em algumas dezenas de cidades em 8 estados brasileiros, e até mesmo, por um ano, na Casa de América, em Madri. Suas noitadas, neste momento, fazem parte também da programação do Sesc Bom Retiro, em São Paulo. O assunto não é, tampouco, um evento anual como o Fliaraxá, por ele implantado no Triângulo Mineiro em 2012, cuja edição 2017, com estrelas como Mia Couto, encerrou-se no domingo passado. Mas o assunto, aqui, é outro, é o Afonso Borges escritor, aquele que agora pisca para o leitor com Olhos de Carvão.

E, de cara, me pergunto onde é que esse bicho-carpinteiro da literatura arranja tempo também para escrever, envolvido que está como atividades que, além das já citadas, incluem redigir e ler no rádio suas colunas do Mondolivro, além daquelas que produz como colunista do portal O Globo. (Esqueci alguma coisa, Afonso? Carta à Redação, por favor.).

Curiosamente, os 26 escritos que ele reuniu em Olhos de Carvão não parecem ter sido produzidos nos breves espaços que lhe permite sua maratona de agitador e promotor cultural. Sem pretensão a alta literatura, são histórias, vinhetas, flagrantes captados por um observador sagaz & capaz, dotado para ver o que há por detrás das aparências, e para destilar seus achados, não raro sutis, com a mão delicada e bem-vinda economia de palavras. Coisa de cineasta afiado, pensei ao ler Olhos de Carvão.

Afonso Borges, felizmente, não se mete a revolucionar a arte literária, nem se propõe a convulsionar a sintaxe, com o risco de destroncar os miolos do pobre leitor, como também não se aventura a sacar conclusão ou moral da história. Limita-se a mostrar. Aquilo que João Cabral de Melo Neto volta e meia dizia, adaptando frase de Paul Eluard: escrever é dar a ver com palavras. (Mas nem por isso, pelo amor de Deus, mera reprodução jornalística da chamada realidade). Dizia também que não deve o poeta “perfumar sua flor”, “poetizar seu poema”. Não sei se Afonso Borges, em sua atravancada rotina de difusor das letras, já encontrou tempo e sossego para ler “Alguns toureiros”, de João Cabral, mas sua preocupação me parece ser a mesma ali expressa: não forçar a mão. O leitor que se vire.

Se assim é, não me peça que aponte as minhas preferidas entre as 26 histórias de Olhos de Carvão. Até porque me parecem todas elas merecedoras de leitura. A lamentar, apenas a circunstância de que o Afonso Borges não possa convidar a si mesmo para um Sempre um Papo. Posso garantir que seria um sucesso.

 O Estado de S. Paulo, 21/11/2017, por Humberto Werneck 

A Gastronomia e o cadastramento são as novidades do Fliaraxá 2017

Gastronomia Fliaraxá e o sistema de cadastramento antecipado. Estas são as duas grandes novidades do Fliaraxá 2017. Na parte de fora do Grande Hotel, uma imensa estrutura está sendo montada, para abrigar cervejarias, restaurantes, bares, docerias e sorveterias, que serão regadas a shows especiais, como o do Pato Fu, João Donato, Celso Adolfo e Lula Ribeiro. Isso tudo ao lado da livraria, que alcança, nesta edição, mais de 600 metros quadrados, a cargo da Blooks, de Elisa Ventura. Ouçam as novidades, por Afonso Borges, no Mondolivro, da Rádio BandNews Belo Horizonte, teclando AQUI. 

 

 

 

 

“Rodas de Leituras”, do Servas, continua tocando corações e mentes

O projeto “2a Chance – Rodas de Leituras” continua tocando corações e mentes. Leiam a coluna de Humberto Werneck, no “Estado de S Paulo”. No dia 31/10, aniversário de 115 anos de Drummond, ele visitou a Penitenciária José Maria Alkimim, no município de Neves. A barra estava pesada, um preso havia se suicidado. Ainda assim, leiam o belo relato do biógrafo de Drummond. #Drummond115.

Sem literatura, o ENEM fica sem ética, sem moral, sem solidariedade.

Ainda meio impactado com a ausência da exigência da leitura de livros literários para a prova do ENEM, caiu-me na tela o discurso de Mia Couto, ao receber o título de “Doutor Honoris Causa”, na Universidade Politécnica de Maputo, em 2015. Recolhi um trecho que fala por si, e nada mais tenho a acrescentar. Leiam, por favor.

“Caros amigos

Irei falar sobre a erosão dos valores morais e de como pode um escritor ajudar na reabilitação do tecido moral da sociedade.

Escolhi este tema porque não conheço ninguém que não se lamente da perda de valores morais. Este é um assunto sobre o qual temos um imediato consenso nacional. Todos estão de acordo, mesmo os que nunca tiveram nenhum valor moral. E até os que tiram vantagem da imoralidade, até esses, depois de lucrarem com da ausência de regras, se queixam que é preciso travar a falta de decoro.

Um dos caminhos que nos pode ajudar a resgatar essa moral perdida pode ser o da literatura. Refiro-me à literatura como a arte de contar e escutar histórias. Falo por mim: as grandes lições de ética que aprendi vieram vestidas de histórias, de lendas, de fábulas. Não estou aqui a inventar coisa nenhuma. Este é o mecanismo mais eficiente e mais antigo de reprodução da moralidade. Em todos os continentes, em todas as gerações, os mais velhos inventaram narrativas para encantar os mais novos. E por via desse encantamento passavam não apenas sabedoria mas uma ideia de decoro, de decência, de respeito e de generosidade.

Há certa de trinta anos atrás Graça Machel – que era então Ministra da Educação – convocou um grupo de escritores para lhes dizer que estava preocupada. Estou preocupada, disse ela, estamos a ensinar nas escolas valores abstractos como o espírito revolucionário, do patriotismo, o internacionalismo. Mas não estamos a ensinar valores mais básicos como a amizade, a lealdade, a generosidade, o ser fiel e cumpridor da palavra, o ser solidário com os outros. E ela pediu-nos que escrevêssemos histórias que seriam publicadas nos livros de ensino. Graça Machel tinha a convicção que uma boa história, uma história sedutora, é mais eficiente do que qualquer texto doutrinário.

Eu queria ilustrar o poder das histórias com dois pequenos exemplos. Nestes próximos momentos partilharei convosco duas vivências e o modo como essas experiências produziram em mim duradouras lições.”

 

Sem leitura, ENEM transforma alunos em cobaias

A redação sobre a formação educacional dos surdos é mais um factóide para ocultar um mal maior: a ausência da leitura de livros literários para se fazer este Vestibularzão da década de 80 que se transformou o ENEM. Apesar de familiarizados com o tema das diferenças, os candidatos foram transformados em cobaias, falsos especialistas em métodos educacionais. A experiência da surdez é muito mais rica quando relatada pela ótica do aspecto humano, de vivência, de alma, da constante superação.

Ouçam Afonso Borges no Mondolivro, da Rádio Band News Belo Horizonte, teclando AQUI.

 

A poesia de Drummond como resposta civilizatória

Um balanço sobre o #Drummond115. Teclem AQUI para ouvir.  Esta é a pauta do Mondolivro, da Rádio BandNews BH, com Afonso Borges. Foram dois dias de intensa atividade em toda a BH: nas praças, ruas, auditórios, teatros, bibliotecas, metrôs, museus (sim!, em Museus!). Com a poesia de Drummond, conseguimos dar uma resposta civilizatória a tanta beligerância. Thiago Lacerda falando poemas eróticos de CDA, Primeiro Ato se apresentando por toda a cidade, grupo La Favelinha compondo raps e funks com as letras dos poemas, o Prêmio “Versões de Drummond” enviou mais de mil vídeos com poemas de estudantes para avaliação. Ganhou a moça Andréia Aparecido de Oliveira, de Caeté, que tem paralisia cerebral que afetou ​sua fala mas não a qualidade de seu texto. Uma soma de esforços inédita: sob o patrocínio do Governo de Minas e Codemig, ombrearam esforços as Sec. de Educação, a Sec. de Cultura, Rádio Inconfidência, TV Minas, BDMG Cultural, Biblioteca Pública Estadual e Servas. E hoje ainda temos Antonio Carlos Secchin, no BDMG Cultural.

As rádios colocaram poemas para tocar. As televisões cobriram todos os eventos, com destaque para a TV Globo Minas, que montou links ao vivo de diversas atividades. Belo Horizonte no centro da literatura nacional, comemorando 115 anos de Drummond. Todos os jornais fizeram coberturas incríveis.

Precisamos encontrar soluções brandas e civilizatórias para responder a este momento tão beligerante. E, para mim, a resposta está no livro, na leitura, no poema, na poesia. E BH viveu isso. Lendo livros nas praças, nas bibliotecas. Tenho certeza: quem lê sabe a resposta certa ao admirar um quadro, ouvir uma canção, assistir a uma peça. Quem lê não censura. Quem lê não oprime. Quem ama lê Drummond. A.