Para os Fake News, a fuga de Tiburi é perfeita e sem volta

A filósofa e escritora Marcia Tiburi, sem querer, estabeleceu um novo paradigma de relacionamento com os MBLs da vida. Ao se recusar participar o programa na rádio gaúcha, onde estava presente, de “surpresa” uma de suas lideranças, ela fundou uma nova forma de atuar, politicamente. A recusa ao debate é inteligente e estratégica, porque as falácias e mentiras só se fortalecem se existe um boi de piranha disponível para colocá-las na pauta do dia. E neste caso, quanto mais qualificado, este personagem, mais se beneficiam os que trabalham para confundir.

Vou além: hoje existem os profissionais que trabalham para o estabelecimento de um ambiente de falácias e falsos cenários. A seu favor, eles têm o óbvio ululante, a meia verdade, a interpretação equivocada. A seu favor, eles tem a velha e boa manipulação. E esta precisa de uma certa credibilidade para se estabelecer. Este é o ponto-chave que a nova postura de Tiburi criou. A recusa em debater com o falso, o mentiroso, o enganador, é um veneno mortal para o próprio veneno destas pessoas. E não é antídoto. É veneno, mesmo. E o nome do veneno é conhecido: Fake News.

Explico melhor: o enganador precisa de referências verdadeiras para construir o discurso da meia-verdade, ou mentira. É o movimento da falácia: a primeira parte do argumento é legítima; a segunda, manipulada, distorcida. É como o leitor de jornal, hoje, que não passa do título. Para quê conteúdo, se o título já diz tudo? É a geração-título-de-jornal. E passível de falsas interpretações, o tempo todo. O Fake News não é uma calúnia que vem do nada. Ele tem como base uma assertiva verdadeira.

Afinal, não fosse assim, porque o âncora do programa da Rádio Gaúcha convidaria 4 homens, no dia seguinte,  para discutir a postura da Marcia, ao se retirar do estúdio? Porque ele escolheu apenas homens? Para lembrar que todos somos machistas, certo? – perguntaria o Gérson, segurando um cigarro Vila Rica. E pior: Marcia está em uma maratona pelo País lançando o livro “Feminismo em Comum – Para Todas, Todos e Todos”, que reinaugura a Rosa dos Tempos, editora criada por Rose Marie Muraro, dedicada à temática feminina. É provocação, mesmo.

Tiburi tem mais é que processar, um por um dos inúmeros enganadores, idiotas de plantão, que recauchutaram seus textos na elaboração do discurso da mentira e do engodo. E tomara que ganhe muito dinheiro. E tomara também que cada centavo que ela ganhe vá para instituições de cunho social. Só para fortalecer quem os MBLs da vida tentam, diariamente, destruir.

Bem, não era nada disso. Escrevi este texto para dar uma boa notícia, dobrada. Marcia Tiburi vem a BH lançar o livro  “Feminismo em Comum” no Dia Internacional da Mulher, em 08 de março, às 19h30, na Cemig. A dobra é que Macaé Evaristo e Áurea Carolina vão participar da mesa, com ela.

Tenham um ótimo dia, mesmo que seja tarde ou noite, na hora da sua leitura. A.

Os 96 anos de Paulo Mendes Campos, onde o amor começa

O aniversário de Paulo Mendes Campos, no domingo, dia 28 de fevereiro não pode passar batido. Mesmo que 96 não seja uma data redonda. Na foto é o primeiro à direita.

Aqui, minha coluna no portal de “O Globo”.

https://glo.bo/2GfWLyM

Abaixo, o texto:

Paulo Mendes Campos, na capicua 69-96, onde o amor começa.

“O resto da vida é aprendizado intensivo para o anonimato, o olvido”, Paulo Mendes Campos, aos 60 anos, referindo-se à sua estréia como poeta, em Belo Horizonte, aos 18, aclamado pela crítica. (*)

A frase, honesta demais, amarga, é uma espécie de premonição. PMC até hoje não tem o reconhecimento devido. Dia 28 de fevereiro é o aniversário deste poeta e cronista belorizontino que repousa no Cemitério do Bonfim, na capital mineira, em túmulo modesto e pouco frequentado. Nasceu ha 96 anos. E morreu cedo, aos 69.

E inspirado nesta capicua, 96-69, onde mesmo o inverso é carregado de melancolia e sarcasmo, tomei a liberdade (ou transgressão) poética de aplicar o contrário em um de seus poemas em prosa mais bonitos, “O Amor Acaba”, que é uma peça imperativa de beleza, de achados bem colocados e incomuns. Mas porque logo o amor que acaba? Sempre me perguntava após cada uma das mil vezes que já o li. Por que tanta e imensa tristeza, agasalhada de trágica beleza? Como ficaria o poema caso o amor, ao invés de acabar, começasse? Ou a beleza está reservada para a tristeza, como dizia o amigo de Paulo, Vinícius de Moraes? Publico, em seguida, o poema original. Leiam e comparem. Será que o inverso guarda a mesma beleza? Vamos lá:

O Amor Começa

O amor começa. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; começa em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde iniciou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e começa o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha começado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e começa o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes começa o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode começar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode começar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor começa na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e começa; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor começa; uma carta que chegou antes, e o amor começa; na descontrolada fantasia da libido; às vezes começa na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes começa em ouro e diamante, dispersado entre astros; e começa nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e começa no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e começa depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não começa e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor começa como se fora melhor nunca ter existido; mas pode começar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e começa o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor começa; a qualquer hora o amor começa; por qualquer motivo o amor começa; para acabar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor começa.

Aqui, o original, “O Amor Acaba”

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

 (*) Extraído do livro ”O Desatino da Rapaziada”, de Humberto Werneck.

Afinal, quem é que sabe desta vida?

Ouçam, na @RadioBandNewsBeloHorizonte, a coluna com o audio deste texto. Só teclar AQUI.
Perdemos o talento, a sensibilidade, o humor fino e a permanente alegria de Flávio Henrique. Perdemos mais: esta foi uma derrota política. Perdemos um cidadão combativo, consciente e esclarecido. Não estava na presidência da Rede Minas por acaso. Sua perda também é uma vitória da barbárie. A Febre Amarela, em seu estado silvestre, já estava controlada há décadas. E agora, o medo aumenta: a outra batalha é impedir que a urbana retorne – esta sim, erradicada desde 1942. Flavinho morre assim, como a letra de uma canção de protesto, pedindo cuidado com as pessoas, com os amigos, com o meio ambiente (logo ele, que amava tanto a natureza). Flavinho morre-não morre. Estará conosco no ambiente dos sonhos, da música, ao lado de outros que assim viveram, como Fernando Brant e Veveco.
Da minha parte, perco o pivete que me seguia em Nova Almeida, nas noites de viola, dividindo a madrugada com Heloisa Camara Pimenta Campos, Rodrigo Carneiro e tantos outros; anos depois, o estagiário que me acompanhou no início do Sempre Um Papo. Quem agora vai contar as histórias malucas dos telefonemas de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola que ele atendeu? Mais tarde, a companhia do vizinho no Retiro das Pedras, seu primeiro casamento e filha; e agora, novamente nossos caminhos se cruzaram, na sua brilhante trajetória como Gestor da Rede Minas. Nosso último encontro foi há duas semanas, em um jantar privado. Conversamos muito e sentei ao seu lado, na mesa. O jantar se alongava e ele queria uma coisa só: voltar pra casa rápido, para estar com sua família.
Aqui, neste espaço inodoro e asfixiante do Facebook, centenas e centenas de pessoas manifestaram seu carinho e amor por Flávio Henrique, na forma de orações. Hora de transportar esta energia boa para sua família, para que tenham força e coragem para enfrentar os duros momentos que virão. Força, fé e confiança no mistério que nos rege.
Adeus, Flávio Henrique. Ou até já, afinal, quem é que sabe desta vida?
A.

O poeta do Barroco, Affonso Ávila, “Homem ao Termo”, Novent’Anos em janeiro

Affonso Ávila nasceu em 1928, em Belo Horizonte. Modernista, moderno, concreto, rebelde, poeta. Ensaísta, gestor público, editor e criador da revista  “Barroco”, tema de sua vida como pesquisador. Autodidata, recebeu da UFMG o Doutor Honoris Causa. Foi o elo de ligação de Minas e os paulistas Décio Pignatari, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e toda uma geração que criou a Poesia Concreta. Discreto, humilde e falante (só entre os amigos), o especialista em Barroco Mineiro nos deixou uma poesia que já nasceu pronta para a eternidade. Não foi à toa que Paulo Leminski largou a batina e veio a pé de Curitiba – reza a lenda – para participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963, em Belo Horizonte, onde conheceu os “concretos”.

Em 19 de janeiro, sexta-feira, Ávila estaria, se vivo fosse, em uma reduzida comemoração pelo seus 90 anos. É hora do Brasil reconhecer neste um dos mais inteligentes, sensíveis e brilhantes poetas. Aqui, um breve resumo de sua vida. Breve, mas necessário. Mas há que se ler Affonso Ávila. Todos nós, mineiros, e brasileiros. Leiam alguns poemas no blog “Escritas.org”.

E quem quiser comprar o livro “O Homem ao Termo”, com a sua poesia reunida (1949-2005), publicado pela Editora UFMG é só teclar AQUI.

AFFONSO ÁVILA nasceu em Belo Horizonte, em 1928. Desde 1951 vem contribuindo para o enriquecimento da cultura nacional, participando da revista “Vocação”, organizada por ele juntamente com a esposa, a poeta e crítica Laís Correia de Araújo, Rui Mourão, Vera de Castro e Fábio Lucas. Em 1953, publica seu primeiro livro de poesia, “O Açude”, seguido de  “Sonetos da Descoberta”. Simultaneamente atua na imprensa, no Diário de Minas e Estado de Minas. Entre 1957 e 1962 funda nova revista: “Tendência”, com Fábio Lucas e Rui Mourão. Em 1961, publica “Carta do Solo”; em 1963, “Frases-feitas”. Desenvolve atividade intensa como pesquisador, ensaísta, poeta. Aproxima-se do concretismo e colabora com a revista “Invenção”. Projeta-se como um poeta de vanguarda em 1963, por incumbência da Universidade de Minas Gerais. Como poeta produz ainda “Código de Minas”, “Cantaria Barroca”, “Discurso da Difamação do Poeta”, “O Belo e o Velho”, “A Lógica do Erro”, “Cantigas do Falso Alfonso El Sábio”, “Homem ao Termo”. Simultaneamente, dedica-se ao ensaio com “Resíduos Seiscentistas em Minas”, “O Poeta e a Consciência Crítica”, “O Lúdico e as Projeções do Mundo Barroco”, “Iniciação ao Barroco Mineiro”, “Minor – Livro de louvores”, “Cartas de Aluvião”, “Circularidade da Ilusão”. Criou a revista “Barroco” em 1967. Foi também um dos fundadores do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG.

Trabalhou nos projetos “Circuito do Ouro”, “Circuito do Diamante” e “Circuito Campo das Vertentes” como diretor de estudos históricos da Fundação João Pinheiro, deixando ampla documentação sobre a arte e o patrimônio histórico/arquitetônico de Minas Gerais. Foi também diretor e conselheiro do IEPHA/MG. Participou ativamente do tombamento pela Unesco da cidade de Ouro Preto como Patrimônio Mundial. Recebeu inúmeros prêmios entre os quais destacam-se: dois prêmios Jabuti de Poesia pelos livros “O Visto e o Imaginado” (1991) e “O Falso Alfonso El Sábio” (2006). Recebeu ainda o Prêmio FCW de Cultura (2007), o prêmio conjunto de sua obra do Governo de Estado de Minas Gerais e a medalha Mendes Pimentel pela doação do acervo (livros e documentos) ao Centro de Estudos Mineiros da UFMG. 

Carlos Heitor Cony e o legado de uma amizade

Ali, pelos meados da década de 80, Carlos Heitor Cony era tido como um autor recluso, que não gostava de fazer lançamentos de livros, nem autógrafos. Mas é importante puxar pela memória: existem dois “Conys”. Um que começou em 1956, com “O Ventre”, seguindo da avalanche de livros “A Verdade de Cada Dia” (1957), “Tijolo de Segurança” (1958) , “Informação ao Crucificado” (1961), “Matéria de Memória” (1962) e “Antes, o Verão” (1964), “Pessach, a Travessia” (1967) e “Pilatos” (1974). Este é o Cony perseguido pela Ditadura, cronista, roteirista e… desencantado com a literatura. Dizia-se morto para os livros. Em 1995, estimulado por Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, surge o Cony versão dois, que produziu a maravilha de livro “Quase Memória” (1995), seguido de outra avalanche de publicações e, principalmente, o que mais o estimulou: a reedição dos livros antigos.

Eu confesso: eu o enganei. Em 1995, depois de várias tentativas de trazer o Cony ao “Sempre um Papo” Luiz me ajudou dizendo que seria uma palestra em um colégio – no caso, no tradicional Colégio Santo Antônio, em BH. Foi, fizemos um evento memorável e… consegui quebrar o gelo e alergia a lançamentos de livros. Mas não passou batido: “você me enganou” – ele disse. Mas foi bom. Daqui pra frente, vou aceitar os seus convites”.

Daí por diante, foram várias as participações, debates, eventos, em diversas capitais brasileiras, comigo. Lançamos livros, e nos divertimos muito -principalmente isso: viajar com Cony era diversão na certa. Uma vez, o autor “Romance sem Palavras” fez, com Artur Xexéo, o programa “Liberdade de Expressão”, pelo celular, no saguão do aeroporto da Pampulha. Um do lado do outro, separados por uma pilastra. No ar, Cony inventou que estava no Rio; Xexeo, acostumadíssimos com as suas pilhérias, disse que estavam em SP. E aí fizeram o primeiro programa, morrendo de rir, um na frente do outro.

E as datas? E as efemérides? E as reuniões de bastidores entre os presidentes da República? Cony simplesmente inventava um encontro, um momento decisivo que ele havia participado. E dizia, com a cara lavada que não era mentira. Era apenas “imprecisão histórica” – o que fazia Artur Xexéo dar aquela sorriso divertido, ao contar esta história. No Sesc Vila Mariana, também, ao lado de Heródoto Barbeiro, no lançamento do livro “Liberdade de Expressão”, ele se confessou alguém que deu certo por acaso. “Afinal, alguém que não consegue falar a palavra “arôpoto” pode dar certo na vida?” E falou, por 3 vezes “arôporto” – lembrando ao presente que sabe escrever certo (rs…).

Mas o momento um dos momentos que mais agradeço – que mostram a amizade na qual entabulamos estas duas décadas de vida, foi em 2006, no Teatro Nelson Rodrigues (atual Teatro da Caixa), no Rio de Janeiro. Na tarde do lançamento do livro “O Adiantado da Hora”, morreu seu irmão mais velho, segundo ele, o mais querido. Quando fiquei sabendo, logo comecei a tomar as providências de cancelamento do evento. Foi quando recebi o seu telefonema, dizendo só isso: “vou sim, por respeito a você e aos leitores que lá estarão. Depois, vou para o velório”. Com esta inesquecível frase, fruto de uma amizade e de um mútuo respeito, me despeço do amigo que um dia eu enganei. Para o bem da literatura, para o bem de todos que o ouviram, um dia falar. Obrigado por seu tempo, conosco, Cony. A sua velocidade da fala, do escrever, do viver, foram compensadas pelo seu legado: livros, livros, e livros. Obrigado.

Confesso que, há 30 anos, eu matei Henfil.

Neste País sem memória, passa sem homenagens os 30 anos de morte de #Henfil, riscado no dia de hoje no calendário da história: 04 de janeiro, um dia comum. Então vai a minha, solitária: VIVA HENFIL! Cara, o Brasil te deve tanto, mas tanto, que não dá para compensar em uma vida.

Henfil,  o Brasil tem a dívida de não ter te proporcionado o cuidado necessário no tratamento da hemofilia; depois, por tê-lo contaminado, durante uma transfusão de sangue em um hospital público, com o vírus da AIDS; na sequência, some na tábula do dever a irresponsabilidade da ausência de cuidado adequado durante a doença, que o vitimou em 1988. O Brasil deve também o bônus da perseguição política a que foi submetido durante toda a ditadura. Não há pagamento para isso. Você morreu antes de viver o momento seguinte que seria, naturalmente, de glórias e homenagens.

E Belo Horizonte deve ainda mais. Nascido em Ribeirão das Neves, Henfil cresceu em BH, em uma funerária que ainda existe, na região dos Hospitais. Formou-se na capital de Minas, onde começou sua carreira, antes de participar da natural diáspora a que todos os artistas mineiros são obrigados a viver.

Em contrapartida, você nos deu muito mais do que um cartum, um desenho. Você nos deu um estilo de interpretação do cotidiano, estruturado no humor ácido e inteligente. Nos deu arte, da melhor qualidade, baseada no conceito pleno de humanidade que os seus personagens – todos brasileiros – nos emprestaram. Você faz uma falta tremenda, Henfil. Mas não sei se você seria feliz com tanta beligerância. Com tanta desumanidade. Com tanta ignorância.

Sendo assim, Henfil, como eu não posso pagar a dívida pelo Brasil, assumo: eu sou o culpado por sua morte. O culpado sou eu. Eu matei Henfil. E fim.

Onde andará Nelly Novaes Coelho ?

​Quem roubou a paz de Nelly Novaes Coelho? Quem ​nos roubou da paz de Nelly Novaes Coelho? Por onde andou nestes últimos anos? Por que só ficamos sabendo da sua morte um mês depois? Manda o bom jornalismo a apuração de pelo menos três fontes para que se confirme um fato. Foram várias que confirmaram a resposta a algumas destas perguntas.

Depois de uma intercorrência clínica, há três anos, ela foi interditada, judicialmente, e internada em uma clínica de repouso. Amigos que tentaram visitá-la no Asilo deram de cara com um aviso proibindo. Aos jornalistas, buscando entrevistas, a resposta negativa, associada a motivos de saúde. Curiosamente, um deles encontrou-a um dia no banco, onde travou um longo e saudável papo, no qual a lucidez foi a referência. Mesmo assim, envolta em mistério, seu paradeiro ficou assim, sem ninguém saber ao certo. Só boatos de brigas de família.

Neste meio tempo, há cerca de um ano, um amigo vai visitar o Sebo do Messias e ali encontra vários livros dedicados a ela à venda. Encontra, inclusive, dois livros do próprio, com dedicatória. Compra alguns. Confere com o dono, que confirma que comprou toda a sua biblioteca. Tenho aversão a familiares que vendem os livros do autor. Leiam o artigo “Mora na Biblioteca do Escritor o Segredo de Sua Obra”, em http://bit.ly/2Em8rin

Agora, um mês depois, uma cuidadora do asilo vaza a informação da sua morte. Repito: um mês depois! Nenhum comunicado, nada de velório, de homenagem, do enterro, nada. Não se sabe nem onde foi enterrada, ou cremada, nada.

Onde estará Nelly Novaes Coelho? Onde? E qual o motivo? Por que isso, assim? Saberemos, algum dia?

Quando se morre um escritor, bandeiras a meio pau. José Louzeiro, um escritor brasileiro, morreu.

Hoje morreu um escritor. Subam as manchetes, portais de notícias. Nada de notas de pé de página, ou matérias escondidas: José Louzeiro morreu. Quando ninguém no Brasil imaginava ser possível viver de literatura, este bom maranhense Louzeiro se impôs um ritmo alucinante que o levou à marca de 50 títulos publicados (tenho dúvidas sobre este número – acho que foi bem mais). Foi o primeiro escritor a perceber a importância do cinema na literatura. E começou a provocar adaptações, como “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” e “O Homem da Capa Preta”. Da sua verve saíram também novelas antológicas, como “Corpo Santo” e “Guerra sem Fim”. Oswaldo França Júnior me disse ter se transformado em um escritor profissional por inspiração em Louzeiro. Ao melhor estilo de Graciliano Ramos, traduziu a realidade brasileira como poucos – ou melhor, como nenhum. Basta lembrar do romance “Aracelli, meu Amor”, baseado no assassinato, em Vitória, da menina de 8 anos. Ou da novela “O Marajá”, baseada na vida de Collor, que foi proibida de ir ao ar. Seu último trabalho em vida foi um roteiro sobre a tragédia de Vigário Geral.

Bandeiras a meio pau no universo da literatura.

Morreu um escritor. Morreu José Louzeiro. 

Francelino Pereira: Morre um Leitor

Morre um leitor. Na minha imaginação, Francelino Pereira ia gostar desta manchete nos jornais, no dia de hoje. Um dia ele me disse que uma das primeiras coisas que fez, ao chegar a Belo Horizonte, em 1944, vindo do Piauí, foi fazer uma ficha na Biblioteca da Faculdade de Direito da UFMG, conhecida por sua excelência, onde se formou Bacharel. Em 54, foi inaugurada a primeira biblioteca da cidade, na Rua Saturnino de Brito, onde ele frequentava. E data de 1964 a sua ficha de inscrição na atual Biblioteca Pública Estadual, na Praça da Liberdade. Ele era um leitor contumaz. Por décadas, tinha por hábito pegar livros emprestados ali. Chegava a pegar um livro por semana, uma vez me contou uma funcionária. Uma de suas alegrias foi a eleição para a Academia Mineira de Letras.

A literatura sempre teve relevo em sua vida. Era capaz de citar trechos de Guimarães Rosa, e outros autores, de cor. Uma das frases do mineiro de Cordisburgo que ele mais gostava era esta:  “Uma coisa é por idéias arranjadas; outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… De sorte que carece de se escolher”. Quando Governador, promoveu a compra do casarão onde viveu e morreu o poeta Alphonsus de Guimaraens e ali inaugurou, em 1984, o Museu que leva seu nome. Fez publicar diversos livros, entre eles, “Pedro Aleixo, a Visão de um Estadista da República”, “Ressurreição do Cinema Brasileiro”, “Mundo, Vasto Mundo”, “Minas: História e Cultura”, “Gilberto Freyre: o Reinventor da História”, “Museu Mineiro: a Casa de Nossa História”, “Os Inovadores: Gustavo Capanema, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer e Petrônio Cortella” e “Ação Cultural do Governo em Minas”.

Nascido na zona rural de Angical, no Piauí, filho de lavradores, nunca esqueceu suas origens. Todos os anos, voltava para rever amigos e parentes. E entrava de casa em casa, cumprimentando a todos. Cresci com o sorriso atencioso e maroto deste meu tio emprestado, graças a meu pai. A sua irmã, minha Tia Heloisa casou-se com Walter Haddad, irmão de Tia Latife, esposa do ex-senador. Há 19 anos, eu conheci e me casei com Tatyana Rubim, natural de Teresina. E com ela tive 3 filhas, meio mineiras e meio piauienses. O Piauí, portanto, de citação, passou a ser ponto de referência na minha vida. Mais um elo que nos ligava, e ele correspondia, com carinho e muitas histórias engraçadas. E como esquecer do “Jantar Árabe”, onde as irmãs Haddad trabalhavam durante todo o ano em prol da Creche Menino Jesus? Como esquecer de Francelino e Dona Latife recebendo todos, na porta, com toda a gentileza do mundo?

Mas a Cultura sempre foi o alvo deste político. No Senado, requereu a instação de uma subcomissão para debater a crise do cinema brasileiro, em 1999, que culminou à criação da Subcomissão Permanente do Cinema, da qual foi relator. Tinha um sonho, dito e redito durante parte da sua vida: transforma a Praça da Liberdade, cheia de Secretarias, em um grande espaço cultural. E foi dele a ideia, em 1997, da Comissão para estudar a instalação do então nominado “Espaço Cultural da Liberdade”. O pré-projeto, concebido pelos arquitetos Luiz Márcio Pereira e Celina Borges, foi entregue ao Governador Eduardo Azeredo, e ao prefeito Célio de Castro, no dia do centenário de Belo Horizonte. Seu sonho está materializado, hoje.

O lugar onde ele se sentia melhor, nos últimos anos, era a Academia Mineira de Letras. Repito, e esculpo na lápide da minha imaginação: Francelino Pereira: aqui jaz um leitor. Obrigado por ter nos dado tanto, durante tanto tempo, Tio França. Vai com Deus.

Pequena Biografia:

Oitavo e último filho de Venâncio Pereira dos Santos e de Maria Ana de Sousa, lavradores e criadores de reses e caprinos, Francelino Pereira nasceu na zona rural de Angical, na pequena propriedade de 50 hectares, pertencente a seus pais.

Francelino iniciou os estudos primários em Angical – PI, com professores leigos, concluindo-os no Ateneu Rui Barbosa, na cidade de Amarante, então sede do município. Fez o curso ginasial no Liceu Piauiense (1938 – 1942). Em 1943, cursou o 1º semestre do 2º ano clássico no Colégio São João, em Fortaleza-CE, e o 2º semestre em Teresina, no Liceu Piauiense. Concluiu o curso clássico no Colégio Afonso Arinos, em Belo Horizonte – MG, para onde mudou-se em Fevereiro de 1944. Aí também fez o curso superior na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais (UMG), hoje Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), bacharelando-se em 1949 (turma Rui Barbosa, em homenagem ao maior jurista do País).

Bacharelado em Direito, Francelino iniciou o exercício da advocacia em Belo Horizonte, no Fórum Lafayete, na rua Goiás. Tornou-se redator político da Rádio Inconfidência,  emissora oficial do governo mineiro, e elegeu-se vereador, na legenda da UDN, à Câmara Municipal de Belo Horizonte para o período de 1951-1954, na gestão do Prefeito Américo René Gianetti.

Exerceu intensa atividade política nos quadros da União Democrática Nacional (UDN), militando na sede do partido e mantendo estreita relação com as lideranças regionais e municipais do Estado.

Elegeu-se Deputado Federal por quatro mandatos consecutivos (1963-1979). Tornou-se uma liderança de forte atuação em Minas Gerais, com participação nos debates e nas decisões do Congresso Nacional.

Francelino Pereira assumiu o Governo de Minas em 1979 estimulando as equipes técnicas de seu Governo para que tratassem o desenvolvimento como um processo de ativação e canalização das forças sociais de Minas, e não apenas como exercício tecnocrático de especialistas bem capacitados. Lembrava, com freqüência, as palavras sábias de Guimarães Rosa: “Uma coisa é por idéias arranjadas; outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… De sorte que carece de se escolher”.

Francelino Pereira foi um dos idealizadores e, na condição de Governador de Minas, construtor do Aeroporto Internacional de Confins. Ao deixar o Governo de Minas, Francelino foi convidado pelo Presidente da República para o cargo de Presidente da Companhia de Aços Especiais Itabira (ACESITA), no qual tomou posse em 04 de outubro de 1983.

Em 1990 assumiu a presidência do Diretório Regional do PFL em Minas Gerais, estabeleceu novas diretrizes básicas em consonância com a direção nacional do Partido e reorganizou suas bases em preparação para as eleições de 1994.

leito senador por Minas Gerais, em 1994, para o mandato 1995-2003, tornou-se membro titular da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, e da Comissão de Assuntos Econômicos, e membro suplente da Comissão de Educação e da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle.

Em 1999, requereu a instalação e presidiu uma Subcomissão especial temporária para debater e encontrar soluções para a crise do cinema brasileiro, iniciativa que levou, no ano seguinte, à criação da Subcomissão Permanente do Cinema, Comunicação Social e Informática, da qual foi membro titular e relator.

Após a conclusão de seu mandato de Senador da República, em 31 de janeiro de 2003, passou a integrar o Conselho de Administração da Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), e a presidir honorariamente a Comissão Especial de Estudos do Centro Cultural da Praça da Liberdade. Espaço Cultural da Liberdade

Inspirado pelo centenário de Belo Horizonte, em dezembro de 1997, e motivado pelo sucesso do Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro (CCBB), para ele uma das realizações mais gratificantes de sua vida pública, o então Senador Francelino Pereira propôs um projeto arrojado para a capital mineira: a criação do Espaço Cultural da Liberdade. O pré-projeto, criado pelos arquitetos Luiz Márcio Pereira e Celina Borges, esta professora da Escola de Arquitetura da UFMG, foi entregue ao então Governador do Estado, Eduardo Azeredo, e ao então prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, no dia do centenário de Belo Horizonte. Atualmente Francelino Pereira ocupa a cadeira n° 25 da Academia Mineira de Letras.

A manhã de Brasília que eu perdi quatro vôos e ganhei um, a cem metros rasos

Programação tripla: reunião na SECOM, entrega da Ordem do Mérito Cultural e lançamento do livro “As Horas Esquecidas”, do compadre Chico Mendonça. Cheguei no Hotel à uma e meia da madruga. Dormi às duas horas. Acordei quatro. Depois, sucessivamente, quatro e quinze, trinta, trinta e cinco, aí coloquei a Soneca no celular. Tinha mais cinco minutos. Fodeu: dormi trinta, saltei da cama, tinha perdido o vôo das 6h10. Sacudi, me conformei, vou só à tarde.

Decidi ligar para a LATAM Airlines ver se dava para mudar pelo telefone. Não dava. “Infelizmente, meu senhor, o senhor deve estar indo para se dirigir ao Aeroporto para fazer a alteração”… disse a voz. Perguntei qual era o próximo vôo – um momento, por favor, meu senhor… 7h30, meu senhor. Mas é daqui a uma hora e pouco, resmunguei, como vocês colocam um vôo depois do outro, assim… não sei, meu senhor… desliguei, com a voz pedindo para eu avaliar o atendimento.

Coloquei a roupa enlouquecido, chamei o Uber lá do apartamento mesmo, sai sem fazer o checkout, pulei no táxi: CORRE MOÇO. Cheguei faltando 45 minutos para o voo, direto no checkin. Corre no balcão, lá do outro lado do aeroporto (meu senhor) e volta aqui para fazer o checkin. Dá tempo! O senhor tem oito minutos!

OITO MINUTOS??

Corri, desesperado, pelo aeoroporto afora, furei a fila e disse: moço perdi o voo das 6h10. Me coloca no de 7h30, por favor, faltam 40 minutos! O atendente, com rosto cheiinho, parecendo indiano com barba, disse: 7h30 para o Rio de Janeiro? O vôo já saiu! E fixou os olhos na tela do computador, como se tivesse resolvido o problema da miséria no mundo. Moço, é o vôo para Belo Horizonte! Sai agora, daqui a 34 minutos! Não posso, meu senhor. Para fazer alterações, o senhor precisa chegar uma hora antes. O sistema não permite. E encerrou, novamente, com a voz de pastor que perdoa: o vôo está fechado.

Relaxei. Tá bom, moço, o que eu faço? O senhor tem que pegar a senha de “alteração de bilhete” e esperar ser chamado. Qual o próximo voo, perguntei – 13h45, ele disse. Conformado, fui pra máquina pegar a senha. Claaaaaaaro que não tinha a opção de “alteração de bilhete”. Só “público em geral”. Achei conveniente. Sou público em geral. Peguei logo umas três. Mal sentei e chamaram a senha. Era o mesmo moço. Ah, é o senhor? Perguntou. Sim, sou eu, você acredita em coincidências?? Falei, meio cínico… Quando ele começou a mudar o voo, eu perguntei… moço, eu era Fidelidade Black… depois que a Latam comprou, o que eu virei? Eu não sou racista, pode me deixar no Black (eu tenho mania de fazer piadas idiotas quando fico nervoso). Tomei aquele “um momento, meu senhor”, de novo.

Mas senhor, o senhor é zafiray!! Amigo, você está brincando comigo? Eu dormi só duas horas, acordei quatro…. ele imprimiu um papelzinho, peguei e li: “Ruby”, estava escrito. Moço, sou Ruby, não sei o quê gay ou Fidelidade Black? Com aquele jeito que estava salvando o mundo, o moço falou, suspirando:
é o antigo Fidelidade Vermelho (meu senhor). Eu falei… aahahhhhh, agora entendi.. rubi, safira, vermelho, gay! Tá tudo certo! Agora você pode me colocar às 13h45 que eu vou voltar para ao hotel e dormir???
Mas senhor… o que foi?, respondi. Hoje saiu uma nova normativa… Os “zafirays” tem direito a postergar o horário do vôo em até horas! Eu pensei, pensei.. postergar… veio o sono… atrasar… adiar… sim!! E aí, moço? Quer dizer que o senhor pode mudar seu vôo para até 3 horas depois do que o senhor perdeu sem precisar pagar multa nem diferença de tarifa. Aí ele ligou para a Supervisora e contou a história. A supervisora não tinha a mínima ideia da nova Normativa. Virou para mim e disse; senhor, corre no balção e tenta pegar este vôo das 7h30. O senhor tem 3 minutos! Eles informaram errado para o senhor.

TRES MINUTOS??

Saí feito um desesperado, de novo, para o balcão, correndo pelo aeroporto afora. Cheguei lá, no balcão, expliquei bufando, pro outro moço, no balcão do checkin: o vôo está fechado, meu senhor – ele também não sabia da nova normativa. Procure a supervisora Sofia. É aquela ali, apontando para uma moça alta que gritava no meu saguão: chama ela aí, é! Ela mesmo! Esta senhora pegou o bilhete para embarcar errado!! Eu tomei coragem e corri para descobrir os mistérios de Sofia. Acabou a gritaria, eu falei: supervisora Sofia, o pessoal do balcão me pediu para vir aqui falar com a senhora porque eu quero pegar este voo, das 7h30. Eu perdi o das 6h10 e vocês me informaram errado… elka;kdfa;hdfaoiehaf;ld (isso sou eu explicando tudo de novo para ela, a 200 quilômetros por hora).

Obviamente, ela não entendeu nada. Foi para um outro guichê quando o primeiro moço que me atendeu, gritou: eu estou aqui, com o embarque dele aberto! Corremos os dois lá. Ela olhou pra mim com uma cara de sonsa e disse: ah, nova normativa? Ah, tenta… faz o checkin dele! Se ele perder o voo, passa para o próximo. O moço fez o checkin, me entregou o bilhete e disse; o senhor tem 7 minutos para chegar no avião. É o portão 25, bem longe. Boa sorte.

SETE MINUTOS?

Liguei a sirene e corri os cem metros rasos. O povo me via, de longe, correndo e ia saindo do caminho. O cara da entrada já abriu a cancela, colocou aquela máquina no meu bilhete, apitou, passei voando. Joguei minha bolsa no raio x, o celular, a carteira e ouvi… Meu senhor, o senhor tem lap top na bolsa?? Eu falei MOCA…. PELAMORDEDEUS.. VOU PERDER O VOO. Ah, tá bom meu senhor… e passou a bolsa com lap top e tudo. Onde fica o portão 25 ? Passa por dentro da loja e vira à direita, é lá no final. Cem metros rasos, de novo.

Sirene aberta vi, de longe, a fila do portão 25. Mas como não tinha certeza se era o portão, mesmo, continuei correndo. Cheguei lá, furei fila, direto para o moço, e perguntei: este é o 3517, que vai para Belo Horizonte? Sim, meu Senhor… Bufando, morrendo, eu falei … graças a Deus… aqui, moço, eu sou SAFIREY. tenho direito a entrar na fila de prioridades? SAFIREY ??? CLARO MEU SENHOR!

Entrei na mesma hora, sentei na cadeira do avião e dormi. Tenho dormido em solo, ultimamente.

(Dedico este à minha cumadre e melhor dentista do universo, Adriana Guimarães Sant Ana, que foi no mesmo vôo, torceu muito para eu pegar, e é testemunha viva desta manhã/madrugada de Brasília).