Os “Sonhos Rebobinados” do Fliaraxá, pelo cara das “iridescências feéricas”

Escrita por Humberto Werneck, em 2013, a crônica “Sonhos Rebobinados” é uma homenagem a Araxá. E ela é tão boa, mas tão boa, que virou o título do livro editado pela Arquipélago. O texto foi feito sob inspiração da entrega dos prêmios do Concurso de Redação do 3o. Fliaraxá, por Adélia Prado, aos estudantes Natália, João Vitor, Ashiley Caroline, Marina e Camilly. Agora, a boa notícia: o livro foi aprovado no PNLD Literário 2018. E caberá aos professores e educadores escolherem este títulos para ser objeto de estudo dos alunos, em 2019. Portanto, fica o toque e o convite. E, abaixo, a crônica. Divirtam-se. Afinal, não é todo dia que a gente conhece “o cara das ‘iridescências feéricas”… A.

Sonhos rebobinados

Por Humberto Werneck, publicado em “O Estado de S.Paulo” em 29/09/2013

Um a um, em contagem regressiva rumo ao grand finale, as quatro meninas e o menino foram chamados ao palco, onde os esperavam uma placa, um cheque e o carinho consagrador da escritora Adélia Prado. Escolhidos entre os alunos de 21 escolas de Araxá, no Triângulo Mineiro, ali estavam como vencedores de um concurso de redação cuja cerimônia de premiação, na sua singeleza, foi um dos momentos mais simpáticos do Festival Literário de Araxá, o Fliaraxá, bolado e orquestrado pelo azougue cultural Afonso Borges. Simpático e também dos mais tocantes, inclusive para um calejado senhor que, sem qualquer parentesco ou relação com os premiados, muito se emocionou. Por um instante, na plateia, ele se pegou a lamentar o fato inelutável de que não vá estar aqui quando, daqui a não muitos anos, se saberá talvez o que foi feito dos jovens protagonistas daquela cerimônia. E não houve como não rebobinar enredos semelhantes, vividos na longínqua juventude

Sim, este cronista, quem duvidaria?

Em 1964, aos 19 anos, entrei no Concurso de Contos da Prefeitura de Belo Horizonte, o mesmo certame em que brilhara repetidas vezes o craque Ivan Angelo. Certo de haver produzido uma pérola da ficção, inscrevi “A Volta”, conto no qual, entre outros horrores estilísticos, havia um telhado que “esplendia ao sol em iridescências feéricas”. Paguei caro. Meses mais tarde, já curado de tamanha literatice, alguém a quem fui apresentado me reconheceu e, numa roda, espezinhou: “Ah, você é o cara das ‘iridescências feéricas'”…

Pois bem: na empolgação de haver parido semelhante joia, perpetrei mais um conto, “Aniversário de Formatura”, que me pareceu menos bom que o precedente, mas ainda assim digno de concorrer ao prêmio. Levei os dois primeiros lugares – e o preferido dos jurados (aquelas antas, fulminei) não foi o tal do telhado iridescente.

Os contos foram publicados em domingos consecutivos no “Estado de Minas”, e na ansiedade por vê-los impressos fiz vigília na boca das oficinas do maior jornal mineiro, embriagado, devo admitir, não só de glória literária. Ganhei um cheque de 8 mil cruzeiros, e, ao descontá-lo no banco, a custo refreei a vontade de proclamar ao caixa, aos circunstantes, ao mundo inteiro, que aquele não era um dinheiro qualquer.

Mais adiante, venci um concurso universitário, e recebi das mãos de Alceu Amoroso Lima um cheque cujo valor já não lembro. Mas não esqueço o que considerei o maior prêmio: um dos jurados era o grande Murilo Rubião, que eu não conhecia e me mandou um exemplar de “Os Dragões e Outros Contos”, ofertado a um “contista que muito promete”. Fiquei lhe devendo, Murilo, a você e a mim, o cumprimento da promessa.

Fez mais aquele que para mim seria um generoso padrinho: levou-me para trabalhar com ele no Suplemento Literário semanal que havia criado na aridez burocrática do Minas Gerais, o diário oficial do Estado, e que 47 anos depois sobrevive, publicado mais espaçadamente, sob o comando benfazejo do contista e romancista Jaime Prado Gouvêa. Ali botei os pés no jornalismo (os quatro, diria algum desafeto), ao preço de alguns tropeços – nenhum deles maior que uma desastrada entrevista, talvez a segunda na minha não premeditada carreira jornalística, com Clarice Lispector, episódio que para o aprendiz de repórter não foi menos que um “traumatismo ucraniano”.

Já não sei que uso fiz dos caraminguás de autor vitorioso naqueles torneios literários. Algo não muito diferente, imagino, do que estarão fazendo agora com seus cheques a Natália, o João Vitor, a Ashiley Caroline, a Marina e a Camilly, jovens confrades premiados no Fliaraxá, a quem mando daqui os meus melhores votos. Talvez algum deles tenha sido, como eu próprio aos 19, assolado pela vertigem de sobreloja – aquela sensação, ainda nos primeiros degraus, de haver alcançado o topo do edifício. Não faz mal se assim for. Será apenas um delírio a que todo aspirante tem direito, capaz de acionar o motor de sonhos legítimos, e de consolar o sonhador quando a realidade fizer baixar a fervura. Fico pensando no que disse, com humildade e sabedoria, alguém que foi muito além da sobreloja, o poeta e cronista Paulo Mendes Campos: “Na carreira literária, a glória está no começo. O resto da vida é aprendizado intensivo para o anonimato, o olvido”.

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