A fábula do viajante na estrada com sinais trocados

Conhecem a história do andarilho que atravessa a vida em um caminho com sinais invertidos? Nas encruzilhadas, encontrava um sábio sarcástico, sentado numa pedra com a mão no queixo. Para seguir em frente, ele tinha que desvendar um enigma. O andarilho é o editor, o livreiro ou distribuidor. Caminhantes do mercado editorial brasileiro.

O viajante-editor vivia na estrada do Sudeste, serena e tranquila com a ordem das coisas: no Rio e São Paulo, ele com 60% e a Livraria, que comprava direto, 40%. No resto do Brasil, ele com 50%, distribuidor com 20% e o livreiro com 30%. Aí veio o vento das grandes redes de livrarias e igualou: fifth-fifth. Mas não foi o suficiente. Queria mais.

Um dia alguém ligou as grandes redes em outra, chamada Grande Rede, internet, e todos decidiram que seria este o melhor caminho. Todos passaram a navegar, mesmo sabendo do passo-a-passo da estrada, dos sapatos surrados. À frente, sorria um sábio de olhos puxados, deitado no solo. Levava um laptop no cinto e um smartphone na mão e disse: – “Decifra-me ou devoro-te”.

Minutos antes de ser devorado pela Esfinge de Tebas, o viajante lembrou  que antigamente só os chamados “fatores endógenos” interferiam no seu caminho. Era a crise, a falta de pagamento, a redução de compras pelo Governo, ou mesmo a tal hiperinflação. Tudo que atrapalhava vinha de fora. E o caminhar seguia. Hoje, os mitos e as histórias fantásticas criadas ao redor da Esfinge se tornaram realidade. O sub-título colada ao enigma – conhece-te a ti mesmo – mandou  o mercado editorial para o divã dos psicanalistas.

Sem saber qual caminho tomar, o viajante teve que se jogar. E tomou a estrada da direita, conservadora e, supostamente, progressista. Após uma curva, um monge psicodélico, com ar zen e bandido, mandou a palavra mágica, em alto e bom som: “EBOOK”. Como se houvesse descoberto a solução do enigma, o caminhante derreteu-se em elogios e agradecimentos. Imaginou o Olimpo.

Como não poderia deixar de ser, logo percebeu a engenhosa armadilha, não sem antes ter ali depositado um saco de ouro. O monge sorriu um sorriso enigmático, a dizer: – “ainda vamos nos encontrar”.

Com seu terno surrado, o andarilho retoma o caminho de sinais trocados. Na primeira bifurcação, lá estava o sábio – não aquele, mas outro, gordo, suado e impaciente. “Decifra-me ou…”  vai logo dizendo. Antes que pudesse responder ele sofisma: – “a solução está dentro de você, pense no que você vê todo dia”. O viajante se lembra da cena final de “O Silêncio dos Inocentes”, o olhar canibal de Anthony Hopkins. “Vá para Veneza”, manda a esfinge-budista. Não precisou. Tomou novamente a estrada da direita e tratou de cobrar cada centímetro de suas gôndolas, estantes e vitrines. Não imaginava o sofrimento que ia causar aos pequenos e médios viajantes, que seguiam, exauridos, milhas atrás.

E o mercado, neste ponto super, durou até mais que o esperado. Enquanto isso, os pequenos e médios andarilhos caminhavam por uma estrada paralela. Os sinais continuavam trocados, mas eles encontraram um jeito de driblar os sábios ensaboados: andavam em bando, afinal a verdade anda em bando. A cada enigma proferido, um comitê se formava e matavam algumas charadas. Pela estrada afora, iam fazendo festivais, feiras, festas literárias e divertiam-se, divertindo os outros. Mas um dia perceberam, estranhamente, que o traçado parecia um círculo.

Em um ponto íngreme da estrada, um viajante parisiense desiste da jornada. Entrega de bandeja as lojas, os livros, as prateleiras e os homens e mulheres para um andarilho local, que passa a carregar duas mochilas, bem pesadas. Como era esperado, não dá conta, e abandona a carga do estrangeiro em uma curva. Com o tempo, descobre que não consegue mais carregar nem a sua. Diminui o passo, deixa de olhar para a frente, como deve ser, passa a olhar para baixo, evitando os buracos, vencíveis a curto prazo. Cruza com outros andarilhos e pergunta: você conseguiu decifrar o enigma? O movimento de corpo dos exaustos editores dá a resposta. Sem pedir autorização, apoia o braço ao redor do pescoço dos cansados e segue, deixando-se arrastar.

Neste ponto a estrada se afunila e os três grupos se encontram. Daí para a frente, a trilha só permite a passagem de um por vez. No horizonte, aos poucos a Esfinge de Tebas se eleva, do chão até o céu. Todos sabem qual será a pergunta.

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