Élcio, um oftalmolgista que venceu a cibernética

Sentado no fundo da loja, cabeça baixa dirigida ao celular, Élcio me esperava. Esqueci do tempo, este senhor imperdoável, já eram meio dia e meia. A rua deserta, todas as outras lojas fechadas, consegui parar o carro na porta da Ótica Tamoio, ali na Rua Ceará.  Um maluco sem camisa falava coisas incompreensíveis para alguém lá no início do quarteirão. Ele me viu, armou um discurso. Como passei direto, ele voltou-se para o amigo imaginário e soltou o verbo ao léu.

Élcio levantou-se, e entre as mil desculpas que eu pedi, sorriu, cordial. Levei três óculos para consertar, além da minha encomenda, o atual, que havia quebrado a haste. Um a um, cuidadoso, foi corrigindo a posição, esquentava, media, esperava esfriar, conferia no rosto, calculava no formato da orelha. Uma das armações foi presente da minha filha, pedi para colocar lente. Pegou uma máquina grande, quadrada, colocou no meu rosto, frente aos olhos, mexeu em alguns números, anotou com uma caneta vermelha na lente: 3,2 um, 3,3, o outro. Depois, uma mágica: colocou a armação, novamente, e me pediu:

– Olhe lá no fundo, como você olha, normalmente.

E, mirando no meu olhar de paisagem, pingou um ponto vermelho, com a caneta, nas duas lentes. Tirou, fez anotações. Agradeci, paguei, pedi mais desculpas pelo atraso e fui embora.

Virei a chave do carro e pensei. O tempo, aquele imperdoável do início do texto, vai conseguir substituir uma pessoa desta? Dizem que no Vale do Sicílio já estão construindo robôs operários. Mas qual poderá ser semelhante a tanto anos de experiência, olhar cuidadoso sobre as hastes, os modelos e, por que não, sobre a Estética? Sabe ele na hora qual formato de armação cai melhor em um rosto largo, curto, irregular. Qual será igual, ou parecido, capaz de se aproximar desta Bíblia de informação e conhecimento sobre os óculos? E ri, pensando: é um oftalmologista com experiência de vendas.

Em pleno silêncio cordial, Élcio venceu a cibernética. Foi um bom sábado. Que venham outros.

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