Drummond, o telefoneiro e a instalação na FCCDA, em Itabira

Idealizado por Pedro Augusto, neto de Poeta Maior, foi aberta na FCCDA – Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, a instalação “Fala, Fala, Fala”. Saibam mais ouvindo a coluna de Afonso Borges na Rádio BandNews Belo Horizonte ou lendo o blog no Portal do Jornal “O Globo”.

Abaixo, o texto:

Bartolomeu dizia que telefone tinha que ficar no corredor. Longe de um lugar confortável. O dele ficava em uma mesa torneada, madeira escura, provavelmente jacarandá, com um lugar de sentar. Antigamente estes móveis eram comuns: uma espécie de mesa baixa com uma cadeira acoplada. E ele se sentia confortável. Mas não gostava muito de telefones. Dizia que era o Drummond que amava telefone. Me contou esta história umas 10 vezes: Drummond era um telefoneiro. Tanto, mas tanto, mas tanto que se por acaso o telefone demorava a tocar, ele ia lá conferir se tinha linha. Sabia até a nota musical: era mi.

O neto de Drummond, Pedro Augusto, artista plástico, achou de dar conhecimento a todos a mania do avô. Inventou a instalação sonora “Fala, Fala, Fala”, em cartaz no Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, até 15 de junho. Ali estão expostos os aparelhos que pertenceram ao Poeta que tocam, tocam, tocam e, quando atendidos, fala, sim, o próprio. Sim, o próprio autor de “A Pedra no Meio do Caminho” recita poemas, fala trechos de entrevistas. É emocionante ouvir a voz meio rouca meio lisa do maior poeta que a língua brasileira já teve. Importante mencionar que a mecânica do atendimento foi desenvolvida por uma equipe de robótica da Universidade Federal de Itabira.

Nem sempre um poema fica bem ao ser falado. A métrica, o hermetismo, as inversões, estratégias estética da construção poética, às vezes criam barreiras. Quer um exemplo: Fernando Pessoa. Mas não é o caso de Drummond. Tudo o que ele escreveu na vida foi feito para ser lido em voz alta, cantado, repetido. Há as pausas quentes, frias, mornas, respiração na hora certa, entonação. Eu mesmo gravei “A Máquina do Mundo” um dos mais belos textos já escritos em língua portuguesa. É difícil, mas funciona como um bolero de Ravel – hipnótico, ilusionista, mágico. Bela ideia a do Pedro ao colocar a voz do Poeta Maior em seus telefones, seus próprios telefones. Que se não podiam falar, falam agora, pela voz de seu dono, o dono da voz. Bravo!

Ouçam a voz de Drummond em 9 poemas:

No Meio do Caminho:

Confidência do Itabirano

Mãos Dadas:

Memória

Confissão

Essas Coisas

Cantiguinha

Declaração de Amor

Band News FM O Globo

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Literatura em Todos os Sentidos, por Afonso Borges

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