Frankenstein foi a senha para a chegada da Revolução Industrial

Abaixo, o texto da minha coluna no portal do jornal “O Globo”. O título é “O FRANKENSTEIN LINDO, MATRIZ DO HOMEM-MÁQUINA, NÃO TERIA COMETIDO SUCÍDIO, HÁ 200 ANOS

Há 200 anos, na verdade, há 198 anos, uma garota londrina chamada Mary Shelley escreveu um dos mais aterrorizantes textos da literatura mundial: “Frankenstein, ou o Moderno Prometeu”.

Foi além: inaugurou a literatura de ficção científica e entregou, ao futuro, sem nem imaginar, o emblema da modernidade: a vida eterna pela via da Ciência. Em narrativa epistolar e arquitetura em moldura, na qual duas histórias se enredam, o texto de Shelley já nasceu um clássico. Mas não foi um despropósito – teve razões de nascer neste tempo.

Os temas e conteúdos que o romance trouxe à baila são muitos. Doutor Victor Frankenstein, estudioso da Alquimia, recorre às Ciências Naturais, que deram origem à Ciência Moderna e à Medicina, para fazer o que só Deus podia fazer, até aquele momento: dar vida a uma ser inanimado. E tal heresia recebe de imediato o pior castigo, na forma da feiúra, da deformação – a sua criação é um monstro. Só neste início, a ainda não inventada psicanálise encheria sacolas de teorias e diagnósticos.

Vai mais além. Frankenstein é o primeiro arremedo de homem-máquina. Os raios, força extrema da natureza, alimentam a máquina, invenção do homem, para dar vida a quem não tem mais vida. É a ressurreição da carne! Diria Hélio Pellegrino, aos pulos. É onde entra e sai, na mesma velocidade e fricção, a Religião. Nunca, em nenhuma circustância, nem mesmo hoje, talvez, a Igreja poderia dar seu consentimento. E mais, creio: não fosse isso, talvez Mary Shelley, em seu instinto inspirado, faria deste monstro o mais lindo e perfeito dos seres. Sem abrir mão, claro, em favor do enredo, da personalidade destrutiva, assassina, amoral e aética.

Um Frankenstein lindo, perfeito, na melhor definição grega do termo, este sim, seria um livro revolucionário. E possivelmente, não editado. Nunca iríamos lê-lo porque não existiria. O Frankenstein, tal como conhecemos é perfeito e conveniente para a transição entre a arcaica Alquimia e a moderna Ciência. O século dezenove era o início da industrialização e um livro triste, miserável e terrível como este era necessário para mudar paradigmas.

Há nele todos os ingredientes da novela atual: traição, vingança, ódio, inveja, tramas, artimanhas, mortes, assassinatos. Tudo enovelado por um grande amor – a noiva de seu criador, que termina estrangulada pela criatura. Ali, naquele momento, entra o Outro e seu terror, que um século à frente veio a ser a base da teoria psicanalítica. Este Outro que não entendemos, não dominamos, não é possível ser controlado e, ao mesmo tempo, é o Outro oculto, terrível, que nos habita.

Este Frankenstein de Mary Shelley, do início do século dezenove é o personagem shaskespeariano que, esfinge, reflete sobre sua existência e nos teletransporta direto para o futuro, quando homens (e mulheres) e máquinas serão um e outro – outro e um, unidos, para sempre.

Este Franskenstein só podia terminar em suicídio, já fazendo spoiller do livro.

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