Seu Sant’Ana, um deslumbramento entre a poesia e a memória

Gente, coloquei no ar uma coluna hoje que dá orgulho de estar com os dois pés em cima desta terra. Ouçam o Mondolivro, na Rádio BandNewsBeloHorizonte, teclando AQUI.  Abaixo, o texto, os vídeos e os áudios.

Um ser humano que consegue ler mais de cem poemas de cor. Vocês não imaginam o susto que eu tomei, ao conhecer, na passagem do Ano Novo,  na casa de uns amigos muito queridos, o senhor  Sant’Ana. Mas o susto passou rápido. Passou na velocidade do deslumbramento, ao  vê-lo falar poemas. O ano de 2018 não poderia começar melhor. E desde então venho procurando formas e ideias de apresentar a vocês, bons ouvintes, esta sorte, esta dádiva que é ouvi-lo.

Eu vou colocar para vocês ouvirem, aqui. Mas no site mondolivro.com.br e nas redes sociais do Mondolivro está toda a história do Seu Joaquim Mendes Sant’Ana, esta gentileza que Deus colocou no mundo para nos dizer que viver vale a pena. Sua voz pausada, seu timbre equilibrado e seus olhos mirando sempre um ponto além nos transportam para aquele estado de suspensão que só a poesia alcança. Como eu disse, ouvir o Seu Sant’Ana reforça esta certeza que anda meio esquecida, hoje em dia: viver vale a pena.

A frase de hoje não poderia ser outra: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, Fernando Pessoa.

Recomendo o livro que mais gosto da poetisa mineira Ana Martins Marques, “A Vida Submarina”, editado pela Scriptum.

Mais sorte ainda por ter amigos que souberam traduzi-lo, no texto abaixo:

Joaquim Mendes Sant’Ana nasceu em Porteirinha, norte de Minas Gerais no dia 7 de março de 1939. Nesses quase 79 anos, guardou em sua memória tudo o que viu, ouviu e leu. Desde a meninice de pés descalços na roça do pai, aos trabalhos que executou como engenheiro em São Paulo, Vitória e Belo Horizonte, tudo está registrado na sua privilegiada memória. SANTANA, como é conhecido, mudou-se da fazenda, onde aprendeu a ler e escrever, para a cidade somente aos 9 anos de idade. Saiu de Porteirinha em cima de um caminhão carregado de algodão com apenas 15 anos, para ir morar com seus tios em Barretos/SP, onde fez o ginásio.

Voltou para Belo Horizonte onde concluiu o colegial no Colégio Municipal, graduando-se engenheiro mecânico pela UFMG. Pouco tempo depois, por hobby, formou-se em engenharia Civil na Faculdade Kennedy, tendo trabalhado como engenheiro mecânico especialista em tubulações e hidráulica nas maiores siderúrgicas nacionais. Ainda consta de seu currículo a conclusão de diversas matérias do Mestrado em engenharia da USP. A memória também foi fundamental para que fosse aprovado, aos 56 anos de idade, em um dos mais concorridos concursos de provas e títulos, tendo se aposentado na carreira de Analista do Orçamento do Ministério do Planejamento em Brasília. Mas sua grande paixão sempre foi a poesia. Escreveu e publicou seu primeiro livro de poemas, “Ternuras e Tormentas” em 1966. E mesmo aposentado, sua memória nunca decepcionou. Especialmente para a poesia – páginas e páginas de versos de grandes poetas e dele próprio, rigorosamente organizadas e encadernadas. De Fernando Pessoa a Carlos Drummond, passando por Boccage, ele está sempre pronto a declamar de cor um dos seus 100 poemas preferidos.

Mas, não se trata simplesmente de um cérebro bem provido de neurônios e massa cinzenta a explicação para memória tão privilegiada. Sant’Ana por onde passa, o faz com olhar atento e curioso. Como menino sedento por ver a vida. Um passa-tempo que adora é mapear todos os pontos de referência das viagens que faz. Sabe de cor as distâncias e o que tem em cada km do caminho de Belo Horizonte para Brasília ou para Montes Claros. Em viagem, não se separa da caderneta e da caneta para anotar tudo o que lhe chama a atenção. Coisa de 3 anos atrás, em viagem pelo Peru, perguntou e anotou as diferentes medidas de espessura dos pelos de lhamas, alpacas, guanacos e vicunhas, detalhe precioso na definição da qualidade do tecido produzido a partir deles. Qualquer um que lhe pergunte hoje quantas micras tem cada um, obterá resposta precisa.

O segredo dessa capacidade de armazenamento de tanta informação passa, necessária mas não exclusivamente, pelo encantamento que as experiências lhe proporcionam. O leque de assuntos que o encantam é vasto. Discute, com conhecimento de causa, desde críticas à interpretações de textos Bíblicos até assuntos de pé de página existentes em enciclopédias escolares. Recorda-se, com detalhes, desde o método de preparo do óleo de mamona que era utilizado na sua infância para abastecer as lamparinas da fazenda, antes da chegada do querosene, até a fórmula da água de potássio que seus pais utilizavam para fazer sabão “de coada”. Paciente e sempre amoroso, sem sombra de dúvidas, trata-se de um caso grave e único de imenso amor à vida que deveria ser seriamente estudado pela ciência moderna.

Vídeos:

Áudios:

 

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Literatura em Todos os Sentidos, por Afonso Borges

6 comentários Deixe um comentário

  1. Só de olhar pra ele já se sente uma espécie de saúde. Quando está no sufoco, uma pessoa assim tem lugar seguro onde buscar refúgio e boas respostas para o que lhe apertar.

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  2. Parabéns “Tio Santana”!!! O senhor nos inspira com sua ternura, belas palavras e vasto conhecimento… Definitivamente, este é “um caso grave e único de imenso amor à vida”!
    Parabéns à Radio BandNews BH e ao Afonso Borges! Não só pela sensibilidade de ter escolhido este ser humano maravilhoso que é o Sr. Santana mas também pelas brilhantes seleções de trechos em vídeo e em áudio da entrevista com este eterno poeta da vida!

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  3. Uma vida cheia de realizações, boas memórias e dedicada ao estudo e à família. Seu Santana comprovou que o coração é sempre do tamanho do que resolvemos amar. E amar o bem, como ele, é um dom especial e de poucos. Parabéns Afonso, pelo belo texto! Parabéns Seu Santana pelo exemplo de vida que nos dá todos os dias.

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