No meu tempo, se não fosse meio viado, não pegava ninguém – nem homem

Tem coisa que é de homem, macho, masculino. E coisa que é de machista, covarde, estúpido, assassino. Já fui chamado de viado mil vezes. Aliás, uma pessoa já até disse que tem provas que eu sou viado. Deu 3 nomes de meus parceiros sexuais, que um dia conto. Mas tem a ver. E foi Nirlando Beirão que clareou este assunto numa roda. Disse que ele era meio “delicado”, mesmo. Isso porque na época de Faculdade, quando o feminismo era um pouco diferente do que é hoje. “Se você não fosse meio viado, não comia ninguém”, brincava. E emendava: “nem homem!”, dando aquela gostosa gargalhada. Eu me identifico com o Nirlando. Delicadeza não faz mal a ninguém – nem na relação entre homens. Por sinal, existe, sim, muita delicadeza na relação entre homens – heteros, principalmente.

Uma feminista não precisa abrir mão das delicadezas. Não é incomum, hoje, um homem ficar com a mão estendida, no ar, quando uma mulher sai do carro; ou sair correndo e quando chega do outro lado do automóvel a moça está lá, em pé, se perguntando se o cara enlouqueceu – quando ele só queria abrir a porta para ela. E assim acontece na hora de sentar à mesa do restaurante. Piora quando chega a conta. É machismo pagar a conta inteira ou feminismo dividir? A dúvida fica sempre no ar. Mas é verdade também que o acordo se constrói entre os pares. Mas eu sempre prefiro pagar a conta.

Mas são tempos brutos. Entre as delicadezas mal trocadas, os segredos se dispersam e a confiança não vem. Se vem, homem-mulher fazem um pacto, nem sempre bem resolvido. Ou se é resolvido, é o espelho do amor romântico, com promessas e juras eternas, fidelidade e tradição, muita tradição. Vejam, mesmo com tanta beligerância, nunca se casou tanto! Confiram a agenda das pousadas e hotéis em Trancoso, na Bahia.

Enquanto isso, o simulacro. E a confusão entre o comportamento dito “masculino” e “feminino” na abordagem afetiva. Uma coisa é assédio e outra, cantada. Há quem confunda as duas. Este jogo de conversas das mensagens via celular, a grande maioria das vezes compartilhada carinhosamente, entre os casais, pretendentes ou namorados é do campo da cantada. Outra coisa é o o assédio real, estúpido, enganoso. O assédio que termina, na maioria das vezes, no hospital ou no cemitério. Assédio é sinal de violência. Cantada, não.

E é neste ponto que os argumentos acabam. Não me venham com percentuais em mercado de trabalho, nos índices de suicídio, nas classificações entre profissões. Nada existe frente a um feminicídio. E vou ao conceito, para ficar bem claro: “O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.” (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher, Relatório Final, CPMI-VCM, 2013). Leiam “Maleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras”). Ali está a prova que a Inquisição foi inventada pela Igreja para matar mulheres orgásticas. E Rose Muraro morreu dizendo isso.

O que se tem a dizer, ao listar os milhares de casos onde o homem mata a mulher? Mata, mutila, trai, engana, estupra, destrói uma vida, arranca a alma do corpo – mesmo que ela continue viva? Como mensurar, com argumentos ou até tratamentos médicos, a infinita maldade de um estupro? Só se pode comparar com a tortura. Se é que cabem comparações. Assim, o que se tem a dizer? O que se tem a dizer para as mulheres, feministas ou não, na tábula da vida e da morte? Quem mata quem? Quem trucida, violenta, arrebenta? Pior: quem pratica, com crianças, a violência maior da humanidade, a pedofilia?

Nós, homens, não temos nada a dizer. Só a aprender, diariamente. E responder, com humildade e sabedoria, a cada fala feminista ou feminina. Temos séculos de maus tratos a compensar.

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