Carlos Heitor Cony e o legado de uma amizade

Ali, pelos meados da década de 80, Carlos Heitor Cony era tido como um autor recluso, que não gostava de fazer lançamentos de livros, nem autógrafos. Mas é importante puxar pela memória: existem dois “Conys”. Um que começou em 1956, com “O Ventre”, seguindo da avalanche de livros “A Verdade de Cada Dia” (1957), “Tijolo de Segurança” (1958) , “Informação ao Crucificado” (1961), “Matéria de Memória” (1962) e “Antes, o Verão” (1964), “Pessach, a Travessia” (1967) e “Pilatos” (1974). Este é o Cony perseguido pela Ditadura, cronista, roteirista e… desencantado com a literatura. Dizia-se morto para os livros. Em 1995, estimulado por Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, surge o Cony versão dois, que produziu a maravilha de livro “Quase Memória” (1995), seguido de outra avalanche de publicações e, principalmente, o que mais o estimulou: a reedição dos livros antigos.

Eu confesso: eu o enganei. Em 1995, depois de várias tentativas de trazer o Cony ao “Sempre um Papo” Luiz me ajudou dizendo que seria uma palestra em um colégio – no caso, no tradicional Colégio Santo Antônio, em BH. Foi, fizemos um evento memorável e… consegui quebrar o gelo e alergia a lançamentos de livros. Mas não passou batido: “você me enganou” – ele disse. Mas foi bom. Daqui pra frente, vou aceitar os seus convites”.

Daí por diante, foram várias as participações, debates, eventos, em diversas capitais brasileiras, comigo. Lançamos livros, e nos divertimos muito -principalmente isso: viajar com Cony era diversão na certa. Uma vez, o autor “Romance sem Palavras” fez, com Artur Xexéo, o programa “Liberdade de Expressão”, pelo celular, no saguão do aeroporto da Pampulha. Um do lado do outro, separados por uma pilastra. No ar, Cony inventou que estava no Rio; Xexeo, acostumadíssimos com as suas pilhérias, disse que estavam em SP. E aí fizeram o primeiro programa, morrendo de rir, um na frente do outro.

E as datas? E as efemérides? E as reuniões de bastidores entre os presidentes da República? Cony simplesmente inventava um encontro, um momento decisivo que ele havia participado. E dizia, com a cara lavada que não era mentira. Era apenas “imprecisão histórica” – o que fazia Artur Xexéo dar aquela sorriso divertido, ao contar esta história. No Sesc Vila Mariana, também, ao lado de Heródoto Barbeiro, no lançamento do livro “Liberdade de Expressão”, ele se confessou alguém que deu certo por acaso. “Afinal, alguém que não consegue falar a palavra “arôpoto” pode dar certo na vida?” E falou, por 3 vezes “arôporto” – lembrando ao presente que sabe escrever certo (rs…).

Mas o momento um dos momentos que mais agradeço – que mostram a amizade na qual entabulamos estas duas décadas de vida, foi em 2006, no Teatro Nelson Rodrigues (atual Teatro da Caixa), no Rio de Janeiro. Na tarde do lançamento do livro “O Adiantado da Hora”, morreu seu irmão mais velho, segundo ele, o mais querido. Quando fiquei sabendo, logo comecei a tomar as providências de cancelamento do evento. Foi quando recebi o seu telefonema, dizendo só isso: “vou sim, por respeito a você e aos leitores que lá estarão. Depois, vou para o velório”. Com esta inesquecível frase, fruto de uma amizade e de um mútuo respeito, me despeço do amigo que um dia eu enganei. Para o bem da literatura, para o bem de todos que o ouviram, um dia falar. Obrigado por seu tempo, conosco, Cony. A sua velocidade da fala, do escrever, do viver, foram compensadas pelo seu legado: livros, livros, e livros. Obrigado.

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