A manhã de Brasília que eu perdi quatro vôos e ganhei um, a cem metros rasos

Programação tripla: reunião na SECOM, entrega da Ordem do Mérito Cultural e lançamento do livro “As Horas Esquecidas”, do compadre Chico Mendonça. Cheguei no Hotel à uma e meia da madruga. Dormi às duas horas. Acordei quatro. Depois, sucessivamente, quatro e quinze, trinta, trinta e cinco, aí coloquei a Soneca no celular. Tinha mais cinco minutos. Fodeu: dormi trinta, saltei da cama, tinha perdido o vôo das 6h10. Sacudi, me conformei, vou só à tarde.

Decidi ligar para a LATAM Airlines ver se dava para mudar pelo telefone. Não dava. “Infelizmente, meu senhor, o senhor deve estar indo para se dirigir ao Aeroporto para fazer a alteração”… disse a voz. Perguntei qual era o próximo vôo – um momento, por favor, meu senhor… 7h30, meu senhor. Mas é daqui a uma hora e pouco, resmunguei, como vocês colocam um vôo depois do outro, assim… não sei, meu senhor… desliguei, com a voz pedindo para eu avaliar o atendimento.

Coloquei a roupa enlouquecido, chamei o Uber lá do apartamento mesmo, sai sem fazer o checkout, pulei no táxi: CORRE MOÇO. Cheguei faltando 45 minutos para o voo, direto no checkin. Corre no balcão, lá do outro lado do aeroporto (meu senhor) e volta aqui para fazer o checkin. Dá tempo! O senhor tem oito minutos!

OITO MINUTOS??

Corri, desesperado, pelo aeoroporto afora, furei a fila e disse: moço perdi o voo das 6h10. Me coloca no de 7h30, por favor, faltam 40 minutos! O atendente, com rosto cheiinho, parecendo indiano com barba, disse: 7h30 para o Rio de Janeiro? O vôo já saiu! E fixou os olhos na tela do computador, como se tivesse resolvido o problema da miséria no mundo. Moço, é o vôo para Belo Horizonte! Sai agora, daqui a 34 minutos! Não posso, meu senhor. Para fazer alterações, o senhor precisa chegar uma hora antes. O sistema não permite. E encerrou, novamente, com a voz de pastor que perdoa: o vôo está fechado.

Relaxei. Tá bom, moço, o que eu faço? O senhor tem que pegar a senha de “alteração de bilhete” e esperar ser chamado. Qual o próximo voo, perguntei – 13h45, ele disse. Conformado, fui pra máquina pegar a senha. Claaaaaaaro que não tinha a opção de “alteração de bilhete”. Só “público em geral”. Achei conveniente. Sou público em geral. Peguei logo umas três. Mal sentei e chamaram a senha. Era o mesmo moço. Ah, é o senhor? Perguntou. Sim, sou eu, você acredita em coincidências?? Falei, meio cínico… Quando ele começou a mudar o voo, eu perguntei… moço, eu era Fidelidade Black… depois que a Latam comprou, o que eu virei? Eu não sou racista, pode me deixar no Black (eu tenho mania de fazer piadas idiotas quando fico nervoso). Tomei aquele “um momento, meu senhor”, de novo.

Mas senhor, o senhor é zafiray!! Amigo, você está brincando comigo? Eu dormi só duas horas, acordei quatro…. ele imprimiu um papelzinho, peguei e li: “Ruby”, estava escrito. Moço, sou Ruby, não sei o quê gay ou Fidelidade Black? Com aquele jeito que estava salvando o mundo, o moço falou, suspirando:
é o antigo Fidelidade Vermelho (meu senhor). Eu falei… aahahhhhh, agora entendi.. rubi, safira, vermelho, gay! Tá tudo certo! Agora você pode me colocar às 13h45 que eu vou voltar para ao hotel e dormir???
Mas senhor… o que foi?, respondi. Hoje saiu uma nova normativa… Os “zafirays” tem direito a postergar o horário do vôo em até horas! Eu pensei, pensei.. postergar… veio o sono… atrasar… adiar… sim!! E aí, moço? Quer dizer que o senhor pode mudar seu vôo para até 3 horas depois do que o senhor perdeu sem precisar pagar multa nem diferença de tarifa. Aí ele ligou para a Supervisora e contou a história. A supervisora não tinha a mínima ideia da nova Normativa. Virou para mim e disse; senhor, corre no balção e tenta pegar este vôo das 7h30. O senhor tem 3 minutos! Eles informaram errado para o senhor.

TRES MINUTOS??

Saí feito um desesperado, de novo, para o balcão, correndo pelo aeroporto afora. Cheguei lá, no balcão, expliquei bufando, pro outro moço, no balcão do checkin: o vôo está fechado, meu senhor – ele também não sabia da nova normativa. Procure a supervisora Sofia. É aquela ali, apontando para uma moça alta que gritava no meu saguão: chama ela aí, é! Ela mesmo! Esta senhora pegou o bilhete para embarcar errado!! Eu tomei coragem e corri para descobrir os mistérios de Sofia. Acabou a gritaria, eu falei: supervisora Sofia, o pessoal do balcão me pediu para vir aqui falar com a senhora porque eu quero pegar este voo, das 7h30. Eu perdi o das 6h10 e vocês me informaram errado… elka;kdfa;hdfaoiehaf;ld (isso sou eu explicando tudo de novo para ela, a 200 quilômetros por hora).

Obviamente, ela não entendeu nada. Foi para um outro guichê quando o primeiro moço que me atendeu, gritou: eu estou aqui, com o embarque dele aberto! Corremos os dois lá. Ela olhou pra mim com uma cara de sonsa e disse: ah, nova normativa? Ah, tenta… faz o checkin dele! Se ele perder o voo, passa para o próximo. O moço fez o checkin, me entregou o bilhete e disse; o senhor tem 7 minutos para chegar no avião. É o portão 25, bem longe. Boa sorte.

SETE MINUTOS?

Liguei a sirene e corri os cem metros rasos. O povo me via, de longe, correndo e ia saindo do caminho. O cara da entrada já abriu a cancela, colocou aquela máquina no meu bilhete, apitou, passei voando. Joguei minha bolsa no raio x, o celular, a carteira e ouvi… Meu senhor, o senhor tem lap top na bolsa?? Eu falei MOCA…. PELAMORDEDEUS.. VOU PERDER O VOO. Ah, tá bom meu senhor… e passou a bolsa com lap top e tudo. Onde fica o portão 25 ? Passa por dentro da loja e vira à direita, é lá no final. Cem metros rasos, de novo.

Sirene aberta vi, de longe, a fila do portão 25. Mas como não tinha certeza se era o portão, mesmo, continuei correndo. Cheguei lá, furei fila, direto para o moço, e perguntei: este é o 3517, que vai para Belo Horizonte? Sim, meu Senhor… Bufando, morrendo, eu falei … graças a Deus… aqui, moço, eu sou SAFIREY. tenho direito a entrar na fila de prioridades? SAFIREY ??? CLARO MEU SENHOR!

Entrei na mesma hora, sentei na cadeira do avião e dormi. Tenho dormido em solo, ultimamente.

(Dedico este à minha cumadre e melhor dentista do universo, Adriana Guimarães Sant Ana, que foi no mesmo vôo, torceu muito para eu pegar, e é testemunha viva desta manhã/madrugada de Brasília).

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