Um texto para São Jorge de Rosas e Livros

Teclem aqui para assistir o vídeo da festa de “São Jorge de Rosas e Livros”:

Abaixo o texto do blogo em “O Globo”.

O que determina se um livro é bom, ou ruim, de verdade? Se o livro é bom, os elogios são fartos, e poucos defeitos são apontados. O livro realmente bom tem uma estrutura interna que organiza conteúdo, andamento, ritmo e peso – peso ou leveza, isso depende do ambiente que o autor quer conduzir o leitor. O livro bom tem este problema – te pega desde o início, desde a primeira página e estabelece uma relação pouco cordial com os personagens. Preso na trama, você, leitor abduzido, vai para o trabalho e fica incomodado com o que vai acontecer, ou já aconteceu. Ou pior, como nos livros de Proust, fica imerso no ambiente da época, mastigando a comida daquele restaurante, escondido atrás da cortina onde aconteceu o crime, trancado no armário enquanto o casal trava um diálogo intenso e triste.

Mas o livro bom às vezes engana. Ele provoca um tédio nas primeiras vinte ou trinta páginas, enredando uma história que pretender ser outra, como uma onça rondando a sua presa, sentindo a posição do vento, para atacar. Quando salta, você, leitor, está irremediavelmente perdido, no meio da história e das histórias, envolvido até o pescoço.

O livro bom sabe encadear a sequência dos personagens, sejam eles muitos, como nas novelas, ou poucos e densos, como em alguns romances. Ele, o livro danado de bom, faz o leitor sentir o cheiro do perfume da moça, o suor do moço correndo, ou parado, morrendo de medo; faz o leitor ficar grudado no teto em uma cena de suspense ou terror, ou doido de tesão, como fez alguns tons de cinza com a grande maioria das leitoras brasileiras.

Jorge Amado só parava de escrever no meio de uma cena. O livro bom tem que ser teatro. A dramaturgia do enredo tem que calcular, de uma forma quase mediúnica, a hora que o leitor vai parar para descansar. De vinte em vinte páginas? Trinta? Quarenta? Sei lá…. mas o escritor tem que saber encadear o enredo de uma forma quase angelical, ou diabólica, para fazer com que a sua vítima, o leitor, volte, no dia seguinte, e grude no livro até dormir – ou não dormir, de preferência.  Quantas vezes vocês já viraram a noite grudado em um livro bom? Eu já fui quase atropelado, andando pela rua lendo, um monte de vezes. E não é atoa que tenho, desde cedo, vista cansada.

O bom livro sabe dosar os usos da palavra “que”, mistura frases curtas com longas, dependendo da situação, entende que a concordância deve ser usada a seu favor, e não ao livre saber da invenção. O bom livro é, antes de tudo, bem escrito. Com a mágica e o tempero que o livro bem escrito deve usar, à exaustão: o tempo.

Bem, acabei não dizendo o que é um livro ruim. Mas acho que todo mundo entendeu. Isso tudo para dizer que hoje é 23 de abril, dia de São Jorge, padroeiro das letras, iluminado, para sempre, por Miguel de Cervantes e William Shaskespeare. Na tradição catalã, o São Jorge de Rosas e Livros.

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