Mora na biblioteca do escritor o segredo de sua obra

Escrevi este artigo para o Jornal O Globo ao descobrir que toda a biblioteca de Paulo Mendes Campos foi vendida. Para os não assinantes, abaixo, o texto:

Afonso Borges – Especial para O GLOBO

Uma biblioteca é fruto do gosto de uma vida. É construída dia a dia, pensada, lida, sentida. Os livros vão se encaixando nas prateleiras como gomos de romã, separados entre carne e semente. Separa-se carne e semente? Como? Não há como. Mas os herdeiros assim o fazem, cuidadosos na dispersão, na dissolução da memória, do conjunto. Aqui pensando na família de João Cabral de Melo Neto que fez evaporar a sua biblioteca em minutos, por quase nada. Ou de tantos outros, desnecessário citar.

Em outra ponta, os herdeiros têm lá sua razão. Normalmente são práticos, amorais: enquanto seu pai, ou mãe, moraram em grandes espaços, feitos para caber seus livros, eles moram em apartamentos menores. Usualmente, são vários, três, quatro, cinco filhos. Mal se cabem, em família. Após o enterro, o acervo vira um elefante branco. O que fazer daquelas centenas de livros? Nem sabem quantos são, como vieram, se fizeram, ou foram comprados, presenteados, quanto valem. A memória difusa engana. O que fazer?

Aí entra o Estado Brasileiro e a precariedade histórica. Não existe política de Estado para se preservar a memória literária brasileira. Pergunto: e se D. João VI não tivesse embuletado nas caravelas todo o acervo literário de Lisboa em uma nau em sua fuga para o Rio de Janeiro, em 1810? O que seria da Fundação Biblioteca Nacional, objeto de vergonha nacional, hoje, dada a sua decadência e descaso? Atenção: o Brasil tem hoje a sétima maior biblioteca do mundo e a maior da América Latina. Não é pouco.

Participei, a convite de José Eduardo Agualusa, do II Festival Internacional de Literatura de Óbidos, o Fólio, em Portugal, conduzido olimpicamente por José Pinho. Ouvi, de João Soares, ex-ministro da Cultura de Portugal e filho de Mário Soares: “Uma das maiores vergonhas que sentimos foi a fuga de D. João VI para o Brasil, com o nosso maior tesouro: 60 mil livros”.

Agora, no meio do artigo, confesso: comprei, sem ter como pagar direito, todos os livros que Carlos Drummond de Andrade presenteou, em primeira edição, a Paulo Mendes Campos. Um bom e responsável negociante, Gilvaldo, me ofereceu todos os 17 livros que comprou de um familiar. Todos autografados. Um pedaço da memória brasileira. O que pensar? Ofereço aos leitores uma das dedicatórias: “Meu caro Paulo, Não é preciso esperar a vinda do Fernando ou do Otto (o primeiro terminava o filme que andava fazendo, e o segundo jamais dá as caras) para vir aqui em casa afim de levarmos um bom e tão atrasado papo. Venha quando quiser ou puder que a casa e os corações são seus. Abraço amigo de seu velho, Carlos. Rio, setembro de 73 PS: vai junto um livro de que recebi alguns exemplares e que, pondo a vergonha de lado, passo às suas mãos.”

Pergunto ao além, ao falecido e querido José Maria Cançado, autor de “Os sapatos de Orfeu”, uma primeira, preciosa e corajosa biografia do autor do revolucionário poema “No meio do caminho”, escrito nos anos 20. Atenção: José Maria a fez editar em 2006, apenas nove anos depois da morte dele (Drummond). Ele, Zé Maria, morreu amargurado pela reticente aceitação de seu brilhante relato.

Pergunto aquém, e agora: e você, Humberto Werneck, que inicia uma nova e desafiadora biografia de CDA: o que pensar? Como decifrar esta pedra que, hoje, está no final do caminho? Ou não? Está ainda no meio do caminho? Onde? Entre a casa de Drummond e Maria Julieta, no bairro da Floresta, em Belo Horizonte e seu primeiro trabalho, na Imprensa Oficial de Minas Gerais, na Avenida Augusto de Lima, no centro da cidade? Ou vale o chiste, que supõe ser uma pedra no ureter, no meio do caminho entre o rim e a bexiga? Sabe-se lá. Mas um dia, isso tem que mudar. Afinal, hoje este mesmo livreiro tem 57 joias da literatura brasileira para vender, que pertenceram a Paulo Mendes Campos. Joia que deveria permanecer no conjunto, em uma biblioteca. Para que a memória literária brasileira não seja, como é, hoje, joia rara e banalíssima.

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