Música para os meus olhos: Bob Dylan vai aceitar o Nobel?

Ele é escritor, ou músico? Por que não retornou a ligação? Aqui, o meu artigo no Blog de “O Globo”:

http://glo.bo/2e7yhuq

Abaixo, o texto:

A ligação da Academia Sueca é o grande mito no mundo literário. Muitos escritores passam a vida inteira esperando. Vejam só o ridículo: Bob Dylan nem retornou o telefonema do Prêmio Nobel de Literatura, até o presente momento, passados dois dias e meio da divulgação. Por que? O seu silêncio diz tudo: porque até ele considera ridículo – afinal, ele não é escritor.

O mestre Fernando Brant dizia que não fazia poema nem poesia. Fazia letra de música. E nem sabia ao certo se isso era literatura. Todo bom letrista sabe que a dança das palavras com a música tem outra lógica. Cada coisa tem que ficar no seu lugar para que a gente possa separar o jogo do trigo. Eu admiro a trajetória de vida e obra de Bob Dylan. Mas colocá-lo ao lado de Thiong’o, Adonis, Murakami, Roth, Saramago… é ridículo.

Isso tudo é  jogada de marketing. A Fundação Nobel, fundada em 1900, vive dos fundos de aplicação em mercado financeiro.  O rendimento anual é distribuído na forma de prêmios. Os investimentos da Fundação não vão nada bem, por isso, ano a ano, os valores andaram caindo. Hoje paga 930 mil dólares, mas já pagou 1,5 milhão, anos atrás. Era necessária uma surpresa, uma jogada genial de marketing para colocar o Nobel no centro da roda, de novo. E isso eles fizeram muito bem.

Quem escolhe o Nobel são dezoito pessoas; nove da própria Academia e 9 convidados, entre professores, todos europeus. Sendo assim, é claro que a palavra final é da própria Academia. Portanto, sabe qual é a possibilidade de brasileiro (ou brasileira) ganhar o Nobel, algum dia? Nenhuma, zero, impossível, esqueçam. Eles não lêem os brasileiros. Nem os poucos que são traduzidos – e isso é matemática, não literatura.

O caso Ladbrokes também foi decisivo na escolha de Bob Dylan. Acontece que a casa de apostas londrina acertou TODOS os ganhadores desde 2008. Todos! Ou eles tem bons informantes entre os jurados ou… tem bons informantes no júri. Não tem segredo. Um dia antes da divulgação, a mídia mundial deu enorme destaque para a liderança de do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o para o Prêmio. A Academia Sueca não ia passar este recibo, por mais um ano. Afinal, se fosse assim, não precisava de eleição – só consultar o site, como eu fiz.

Mas isso não foi suficiente. Vinte e quatro horas antes da divulgação, Bob Dylan subiu da posição 54o. para 4o. – ou seja, a Ladbrokes acertou, de novo. E pagou apostadores 16/1 para Dylan contra 4/1 de Thiong’o. E os líricos, os desavisados, ao lado da mídia norte-americana, sempre auto-referente, louvaram e desdobraram teorias sobrenaturais sobre a importância da poesia na música.

Ficou o ridículo, ficou o reverso do espelho, ficou a lista de “perdedores”: Thiong’o, Adonis, Delilo, Roth. Como fabulou Darcy Ribeiro, uma vez, tenho pena dos ganhadores, no caso, do ganhador que viu sua “obra” ascender 500% em downloads no Spotify, ontem. Música para os olhos, sem dúvida.

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