O gol que faltava na carreira de Tostão: o de letras.

Bom lembrar de coisas boas na vida. Aqui, a lembrança do João Saldanha, no momento em que Tostão lança, finalmente, sua autobiografia. Escrevi para minha coluna em O Globo. Abaixo, o texto.

João Saldanha era um querido amigo. Ali por 1998, veio a BH cobrir um jogo do Cruzeiro e Flamengo e ligou para almoçarmos. Chamei o escritor Carlos Herculano Lopes para fazer uma galinhada lá em casa. Fomos ao Mercado Central comprar a galinha, mas ele não passou da porta. Doente de enfizema, não conseguia andar muito. Em casa, fizemos uma longa entrevista, quase quatro horas. Entre as histórias, uma pérola, sobre a convocação, em 1969, do Dr. Eduardo, o Tostão, para a Seleção Brasileira, quando ainda era técnico.

Como todos sabem, em 24 de agosto daquele ano, o zagueiro Ditão, do Corinthians, chutou a bola no rosto do meio de campo do Cruzeiro, provocando um descolamento de retina. Em outubro, ele submeteu-se a uma cirurgia, nos Estados Unidos. Mesmo com recuperação improvável, João Saldanha o convocou para a Seleção, apenas alguns meses depois. Como a imprensa não parava de perguntar sobre o assunto, o técnico decide convocar uma coletiva, no meio de campo. Pegou um cavalete de madeira, e chamou o Tostão.

 – Sobe no cavalete, ordenou. Tostão subiu.

– Pula, mandou. Tostão pulou.

Virou para os jornalistas e perguntou:

 – Alguém viu o olho ele aí na grama? Gritou, apontando para o solo. Silêncio geral.

– Não? Então está resolvido. Vai jogar, Tostão.

Um dia, perguntei ao Dr. Eduardo se isso era verdade. Eloquente, como sempre, ele só me olhou, de soslaio, deu uma risada mínima, e mudou de assunto.

Em 1997, escreveu o livro “Lembranças, Opiniões e Reflexões sobre Futebol”, editado pela DBA, de São Paulo. Tive uma pequena participação no tema, ao sugerir o livro e apresentar os diretores da editora ao autor.

Culto, inteligente, leitor ávido, Tostão encerrou a sua carreira de jogador precocemente, aos 26 anos. Formou-se em Medicina, foi professor, colunista, comentarista e agora, escritor. A Companhia das Letras acaba de mandar para as livrarias a autobiografia “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos: Um Olhar Sobre o Futebol”. Este é um livro esperado por seus milhões de admiradores, fãs e leitores. Ele, que deu tantas alegrias, a tantos, faz agora o tento que tanto sonhou: o gol de letras. É correr parar comprar. E comemorar.

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