Quanto custa a fala de um autor, em “O Globo”, por Afonso Borges

Amigos e amigas, mudei o texto um bocado para publicar no impresso de “O Globo”. Leiam, é uma boa reflexão. Só teclar aqui, ou ler o texto abaixo.

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Ouvir, em bem. É o milagre.

Aqui, o texto:

Quanto custa a fala de um escritor?

RIO – Ou talvez seria melhor: quanto vale a fala de um escritor? Há uns anos, no lançamento do livro do saudoso Bartolomeu Campos de Queirós, uma senhora me abordou e disse:

— Há muito tempo estou para te procurar. Tenho que te agradecer.

Na confusão do evento, quase não prestei atenção. Mas ela foi incisiva:

— Preciso falar com você, agora, por favor.

Fomos para o canto do sala, ela, acompanhada de seus familiares, contou que esteve presente ao debate de lançamento do livro “1968, o ano que não terminou”. As histórias libertárias e ao mesmo tempo opressoras relatadas por Zuenir Ventura mudaram a vida daquela senhora. Na época, era professora primária. Entrou para a universidade, formou-se, fez mestrado, pós, doutorado. Ali conheceu seu marido, teve dois filhos. E passaram-se 20 anos. Ela não me disse, exatamente, quais foram as palavras ou qual foi o contexto que provocou a mudança. E talvez nem fosse necessário.

Num zap, mês passado, cinco mil pessoas se acotovelavam na Praça Sete, em Belo Horizonte, para assistir ao trio Leonardo Boff, Mario Sergio Cortella e Frei Betto, no lançamento do livro “Felicidade, foi-se embora?”. No Cine Theatro Brasil só cabem mil e duzentas. O evento virou cinema: duas sessões — uma às 19h30m, outra às 21h. Um primor de debate, com um ingrediente divertido: eles se comprometeram a fazer falas diferentes. Após centenas e centenas de autógrafos, até uma hora da manhã.

Do palco, eu observava os olhares das pessoas na plateia. Curiosidade, atenção, detalhes desse milagre que se opera quando um ouve o outro. Quando pessoas se sentem integradas em uma espécie de comunhão. É o milagre do ouvir, e bem. Raro, hoje em dia.

Volto à questão central: quanto vale a fala de um escritor? As palestras de um executivo, de um administrador, de um técnico ou especialista têm cifra determinada. Os profissionais liberais também: um médico cobra de acordo com sua experiência, seu prestígio, sua credibilidade. Em escala progressiva, claro.

A FORÇA DAS IDEIAS

Já a fala de um autor é inexata e, na maioria das vezes, próxima de uma ajuda de custo, uma espécie de voluntariado cultural. Rose Marie Muraro se dizia missionária da cultura. Passou a vida rodando o país, nessa cruzada santa pelos direitos da mulher e pela literatura. O escritor não vende informação, passa experiência de vida; não faz palestra, fala ao coração; não dita regras ou fórmulas, ensina o humano que há em nós. Tudo pelo código transcendental da leitura, pela força sem mensuração das ideias. Talvez por isso Nietzche dizia que “ideias são forças”.

Uma vez passei um domingo na casa de Millôr. Ele cobrava cinco mil dólares por entrevista ou palestra. Dizia que se “eles pagam por artigo, por que não pagar por entrevista? É a mesma coisa”. Foi criticado, chamado de mercenário. Naquela tarde, um programa de televisão o convidou para participar, em São Paulo. Ele aceitou de cara. Combinou tudo: data, horário, transporte, tema, tudo. Ao final, perguntou para a moça: “agora… você sabe que meus honorários são cinco mil dólares, né?”. A moça desligou, imediatamente. Ele me olhou, piscou o olho e perguntou:

— Você acha que eu vou sair daqui, ir pra São Paulo, de graça, dar entrevista, e ainda ouvir o cara me chamar de “meu garotinho”…? (Uma referência ao jornalista Osmar Santos).

E voltou pro computador, onde desenhava a biblioteca de Jorge Luis Borges, imaginando quais seriam os títulos, um a um. Isso tem preço? Ou valor?

Afonso Borges é escritor, gestor cultural e criador do Fliaraxá

 

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