A ressurreição da Cosac Naify e a cara de tacho dos jornalistas. E com boa notícia.

Aqui meio encafifado com isso. A Cosac Naify acabou, ou não? Depois de fatiar seu catálogo, vendendo as partes para diversas editoras, anuncia que alguns títulos vão voltar, em e-books e outros, reeditados. Agora, uma boa notícia: vem por aí livro novo, de Beatriz Azevedo, intitulado”Antropofagia – Palimpsesto Selvagem”. Mas, mas, mas… se não acabou, por que o anúncio? E se acabou, onde ela vive, no limbo? Aqui, o ponteiro para a coluna, em “O Globo”.

E aqui, reproduzo o texto:

“Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão” – o verso final de “Memória”, de Carlos Drummond de Andrade cheira como um cravo de caixão, no caso do da editora Cosac Naify. Mas os mistérios da vida e da morte são indecifráveis. Em dezembro de 2015, o seu proprietário, Charles Cosac, anunciou, aos quatro ventos e com todas as pompas fúnebres disponíveis, o “encerramento das atividades” da dita cuja. Toda imprensa brasileira, servil ao culto da personalidade, deu espaços monumentais a este senhor, que mudou a cara da edição de livros de arte no Brasil. Para melhor, muito melhor, publique-se. Se entendi bem, a Cosac Naify finou. Certo? Brincando com o clássico de Pirandello, “assim é (se não lhe parece)”.

Logo recebemos notícias que o seu catálogo foi vendido, como em um açougue, em partes, para diversas Editoras: Companhia das Letras amealhou o filet-mignon, a Sesi o contra-filé e acém, e por aí foi. Alguns autores ficaram ali, largados no canto da vitrine refrigerada, como o belíssimo relato de Heloísa Seixas sobre Ruy Castro, “O Oitavo Selo”. Outros tiveram seus contratos rescindidos, logo após o lançamento, como o é o caso de “O Circuito dos Afetos”, de Vladimir Safatle – sem lógica nenhuma, por sinal – ele foi para a Autêntica, que já fez a segunda reimpressão do livro, semanas depois de lançado.

Maurício Meirelles, da “Folha de SP ” nos informa que a editora continua viva, transportando livros físicos para o além, na forma de e-books. O genial contista mineiro Vander Piroli, vai poder ler seus livros de lá, no plano virtual: vão ser vendidos exclusivamente pela Amazon.com. Nesta lista, vão mais uns 30, entre eles, “Novelas Exemplares”, de Cervantes, “Contos Completos”, de Tolstói,  “Siciliana + Tempo Espanhol”, de Murilo Mendes, “Decameron”, de Boccaccio. Curiosamente, alguns destes títulos vão ser também editados pela Companhia das Letras. Como são obras em domínio público, tudo bem.

Sabe-se agora que esta morte anunciada nem foi tão assim… morta. Sobrevive fisicamente em pelo menos 14 livros, que serão reimpressos, entre eles, “David Copperfield”, de Charles Dickens, “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, “Guerra e Paz”, de Tolstói, “Poesia”, de Pier Paolo Pasolini e “Fábulas Completas”, de Esopo. Em seu estado de quase morte, o editor optou pelos mortos, mesmo – todos em domínio público, sem a necessidade de nenhuma relação com seus autores, nem, óbvio, pagamento de direitos autorais.

Mas, vejam só, lá do limbo, da terra onde não mora ninguém, a Cosac Naify nos manda uma belíssima notícia: a publicação do livro – físico – “Antropofagia – Palimpsesto Selvagem” da escritora-cantora Beatriz Azevedo, com com desenhos de Tunga e prefácio de Eduardo Viveiros de Castro. Segundo ele, a “primeira leitura realmente microscópica do ‘Manifesto Antropófago’ de Oswald de Andrade. Um primor.

Mas fica aí a lição, ou a não-lição, que a Cosac Naify nos deu: quando um Editor anunciar que vai fechar uma Editora, esperem a certidão de óbito. Se não tudo vira marketing e nós, pobres mortais da imprensa viva, servidores da estratégia comercial do momento. Bem ruim, isso.

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1 comentário

  1. Letícia Alves · maio 29, 2016

    Achei muito estranho mesmo. E acompanhando, não tão de perto, fiquei percebendo a volta desses títulos que você mencionou. Agora concordo com você, melhor esperar a certidão de óbito mesmo. Abraços!

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