Na homenagem a Murilo Rubião, um croniconto de Afonso Borges

O Caderno Pensar, do jornal Estado de Minas publicou uma belíssima homenagem pelo centenário de Murilo Rubião. Cedi um conto do meu livro “Olhos de Carvão”, que será publicado em 2017, pela Editora Record. Parafraseando Manoel de Barros, aqui, só 10% é mentira.

Segue o ponteiro para o jornal: Caderno Pensar. Abaixo, para os não-assinantes, reproduzo abaixo o texto. A.

A encruzilhada, o assovio, as garças e a história

(Porque Bartolomeu e Murilo tomaram o rapaz pelo braço)

Finalmente, terminou o texto. Imprimiu, leu novamente, rabiscou, trocou palavras e frases, depois corrigiu no lap. Parou, deu voltas, mergulhou no ruído da cidade, absorto. “O Menino, o Assovio e a Encruzilhada”. Frases curtas e o assovio, mágico, mudando o cenário e transformando tudo. Perto de Maurice Druon, pensou. O que diria Bartolomeu? Finalizou o arquivo, abriu o navegador e mandou para o seu email, com uma longa carta. O que ele diria? Precisava saber.

Murilo sempre caminhava por ali. Subia a Augusto de Lima, saindo de seu apartamento, no prédio ao lado do Maletta. Vinha devagar, às vezes falando sozinho. Sempre ali pelas oito e meia, hora que o rapaz ia para o Banco. Quando Murilo o via, chamava. Mudei o final do conto, ia logo dizendo. Ele ouvia, atento, as histórias de dragões e invenções. Todo dia, um final diferente. Às vezes repetia um que já havia sido mudado. Mudava para o anterior. Murilo invenção.

O telefone preto, imenso. Não sabia por quê, mas lembrava-se muito daquele telefone na casa de Bartolomeu. Ficava horas sentado em uma pequena cadeira ao lado do corredor, conversando. Quando não tocava, ia conferir se estava mudo. Era só tirar do gancho que dava linha. Sua indignação meio santa, meio opaca, tinha lugar ao telefone. Uma vez chegou a dizer que podia conversar com espíritos, com gente morta ao telefone. Esperou e não recebeu o email dizendo que aquele endereço eletrônico não existia mais. Mas não bastava. Precisava saber o que ele achava. Precisava.

Murilo sentado na mesa do Pelicano. Um chope claro, com espuma, desencadeou a enxurrada de histórias. Ou, às vezes, apenas uma, sistemática, insistente, única. O trecho das leoas devorando o elefante impressionava, mas não estava resolvido. As garças voavam ao redor, impedindo que os abutres se aproximassem. Era uma terra sem sol nem noite. Apenas a penumbra mágica das nuvens eternas. Um outro planeta, pensou o rapaz. Murilo-invenção.

Sentado na cadeira, deslizava as mãos sobre o braço de metal polido. Era uma cadeira modernosa, com o braço em curva. Depois da centésima vez, repetido o gesto, olhou teatral: não haverá mais governo, um dia. Nem leitura, nem literatura. Um dia não haverá mais nada. Sobrarão apenas os professores e as professoras, ensinando ao vento. Tenho muita pena das professoras que não sabem disso – que não sabem que esse dia virá. Olhou novamente o email, nenhuma resposta. Indignou-se. Morte.

Murilo Rubião veio, andando, sem parar, segurou em um braço do rapaz, que continuou andando. Bartolomeu Campos de Queirós acompanhou os passos e segurou no outro braço. Começou a levitar. Entendeu a encruzilhada, o caminho a tomar. E ouviu o assovio. Maurice Druon.

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