Barral e Lispector, rivais, por Nádia Gotlib

Aqui, a coluna de Afonso Borges, em “O Globo”: http://glo.bo/1WTBXRu

Difícil imaginar, mas a coisa corriqueira da amizade conspirou neste sentido. Um dia, o bibliófilo José Mindlin brincou com a primeira biógrafa de Clarice Lispector, Nádia Batella Gotlib, que Lispector rivalizava com Barral. Mergulhada nas pesquisas que culminaram com o livro Clarice uma vida que se conta (1995) e, em seguida, a Fotobiografia de Clarice Lispector (2008), a professora de Literatura Brasileira da USP deixou a Condessa de lado. Mas não totalmente.

Nádia teve o privilégio – o que me enche de inveja, nem um pouco santa – de frequentar a Biblioteca (assim, com maiúscula) do dr. José Mindlin, em São Paulo, durante vários anos. Ali pelo início de 90, e sabedor do interesse de Nádia por literatura escrita por mulheres, um dia ele disse que tinha uma coisa que podia interessá-la. E mostrou, postado em uma prateleira da primeira sala do edifício anexo a sua casa, vinte e nove caderninhos, com capa de couro, parecidos com um diário. E eram, mas não eram diários comuns. Era simplesmente os diários da baiana Luísa Margarida Portugal e Barros, a Condessa de Barral.

E foi ali que começou o trabalho imenso de transcrever, fielmente, quase 4 mil laudas. Este tesouro, na forma de cartas, foi escrito durante o período que a Condessa já estava em Paris, após encerrar a temporada na Corte, como tutora das princesas Isabel e Leopoldina. Eles contém parte da história do Brasil na voz de uma mulher que conviveu intimamente com a família real. A voz de uma mulher que meiou uma vida na companhia do casal D. Pedro II e D. Tereza Cristina, inclusive nas vezes que viajavam para a Europa ou nas temporadas que a Condessa passou no Brasil. Lembrando que ela cresceu em Paris, por causa dos negócios de seu pai, que ali atuava.

Um fato curioso que Nádia ressalta é que as cartas que compõem os diários não ficavam com o Imperador. Elas eram lidas, rabiscadas em entrelinhas ou ao final do texto, e devolvidas ao remetente. Assim, compunham um diálogo, uma conversa a dois, mesmo que com poucas intervenções do lado masculino. E por que eram devolvidas? Por precaução, talvez, pelo seu conteúdo que excedia a simples amizade? Os três morreram na Europa. E, curiosamente, a Condessa morreu menos de um ano após o Imperador D. Pedro II, em 1891.

O fato é que o livro está pronto e está na hora de Nadia Batella Gotlib acabar com esta rivalidade com Clarice Lispector e mandar para as livrarias os diários da Condessa de Barral, esta narrativa epistolar que oculta – ou revela – tanta história, quanto amor. Ou nem por ali, amizade, incontida.

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