Criação literária alheia à realidade e, ao mesmo tempo, fruto da experiências vividas

Rodapé_MondoLivro - Boletim literário na Rádio CBN

Humberto Werneck, em sua coluna no “Estado de São Paulo” de hoje, levanta um dos pontos centrais da literatura: escrever é um voo cego, ou não: é sempre referencial, com traços autobiográficos? Ou será os dois e o escritor é só um títere? Só um boneco maniquetado, ao sabor dos ventos da imaginação? Humberto cita um dos painéis que ele considerou o ponto alto do IV Fliaraxá: o debate entre o paulista Bernardo Carvalho e o argentino Leopoldo Brizuela. Neste momento, foi colocada a gênese da criação literária. E cita o sempre divertido Fernando Sabino que gostava de dizer que o escritor escreve não porque saiba, mas para ficar sabendo. E que se não fosse assim, e pudesse ser de outro jeito, o “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, se reduziria a uma história de moça travestida de vaqueiro.

Os dois escritores sustentam que a estória do livro, por mais planejada que seja, é um vôo cego, sim. Como uma viagem de ponto a ponto, de Belo Horizonte para São Paulo, de ônibus, onde tudo pode acontecer, na estrada. E acontece, mesmo. O exemplo de Humberto é muto bom. Quando jovem, praticou o ficcionismo e, influenciado por Murilo Rubião, escreveu vários contos, reunidos no livro “Pequenos Fantasmas”.

Ele conta que uma das histórias, reveladora. Trata-se da descrição do que transcorre numa casa em seguida à morte de alguém cujo nome não é dito. Um velório acontece, onde ninguém tem nome. Eis que Humberto descobre, ali pela sexta lauda, que ele estava narrando, inconscientemente, o que se passou na sua casa na madrugada em que faleceu a sua avó paterna. Parou, assustado, e demorou um tempo imenso para retomar o conto.

Será a literatura e a criação literária este susto, alheio à realidade e, ao mesmo tempo, fruto da experiências vividas? Será possível escrever durante a viagem sem contar as curvas da estrada? Este mistério, próprio dos grandes ficcionistas que nos encantam com suas obras maravilhosas, a gente vai ficar sempre na dúvida. O real e o imaginário se misturam e, juntos, fazem os grandes livros, as obras inesquecíveis.

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